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Parabéns Pra Você, 1980

VIVENCIAL DIVERSIONES

Olinda, PE, 1974-1983

Nascido em uma paróquia católica durante a ditadura militar, o grupo Vivencial Diversiones foi um marco de transgressão na cultura pernambucana. Seu primeiro espetáculo Vivencial I, causou grande repercussão e provocou o rompimento com a arquidiocese. Quase sem recursos financeiros, passaram a transformar lixo em figurinos e cenários e produzir muitos espetáculos independentes. Anos depois, fundaram um Café-Teatro que atraia centenas de pessoas diariamente, com apresentação de diversos artistas. O grupo transformou o teatro e o cabaré brasileiro, ousando discutir gênero, sexualidade e política em momento de grande repressão.

publicado em 13/05/2021

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Noites Tropicais, 1980

Programa da peça Noites Tropicais, 1980

Olinda, 1974. Em meio a ditadura militar, nasce dentro da igreja católica o grupo Vivencial Diversiones. Uma mistura que iria trazer uma vibração descontrolada a cultura pernambucana. Comemorando os 10 anos da Associação dos Rapazes e Moças do Amparo, a pastoral de juventude beneditina resolveu criar um espetáculo. Os encontros de teatro eram para que os jovens pudessem refletir sobre suas realidades e buscassem transformações. Guilherme Coelho, paraibano que sonhava em ser monge no Tibet, assume a direção do Vivencial I, com a proposta “seja você mesmo, busque seu eixo, saia de casa, construa, mude o mundo”. A peça, resultado de improvisações com base em textos de Brecht, Genet e Platão, já abordava assuntos como massificação, uso de drogas, abuso de poder, sexo e tecnologia. Mesmo com as vertentes libertárias dentro da Igreja nessa época, devido a grande repercussão, positiva e negativa, acabaram perdendo o apoio. Depois de serem desalojados da Arquidiocese e se desconectarem dos propósitos religiosos, passaram a realizar outros espetáculos, sempre usando o teatro como forma de incluir e gerar reflexão social e política. Para escapar da censura federal, não cobravam ingressos. Também não recebiam salário. Todo lucro era economizado, geralmente vindo de doações da plateia ou venda do programa das peças, que traziam a seguinte mensagem:

“Caros caras: Não sou anormal. Somos. Logo, não somos. É diferente. Um anormal é anormal. Dois anormais são normais. Tanto mais se unidos.

Muito poucos fazem muito. De minoria em minoria, a maioria enfia a viola no saco, e a violação no cu.” 

Trio Vivencial - Henrique Celibi, Fabio Costa e Guilherme Coelho

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Vivencial, Imagens do Afeto em Tempos de Ousadia por Ana Farache

Em 1979, uma das montagens mais importantes do grupo: Repúblicas Independentes, Darling é apresentada no Teatro Cacilda Becker no Rio de Janeiro, chamando a atenção e rendendo boas críticas dos jornais. Neste ano, viajaram também para São Paulo, participando do Projeto Mambembão, do Serviço Nacional de Teatro (SNT). Apesar da crescente visibilidade, continuavam sem uma sede própria. Já tinham ficado cinco anos no Teatro Guadalupe buscando patrocínios e fazendo economias, até que conseguiram comprar um terreno e criar a casa de espetáculos. Localizado no Complexo de Salgadinho, região de mangue na periferia de Olinda, o Vivencial Diversiones era um café-concerto que atraía curiosidade e fascínio, mas que também sofria bastante repressão por sua estética. PernaLonga, Américo, Celibi, Guilherme Coelho e companhia eram um respiro em meio ao caos, transformando lixo em beleza. Conhecido como o ‘teatro dos frangos’, lá o foco não era estudar o teatro, não havia método. Porém, mesmo assim, a casa das "vivecas" vivia lotada com programação intensa nos fins de semana: 21h, peça de teatro; 23h, show musical; 00h, show especial com dublagens e esquetes; e 1h30h, show de variedades. A formação nessa época contava também com várias integrantes mulheres e travestis. Estas buscavam se profissionalizar e seguir carreira como artistas, o que impedia que fossem presas por vadiagem. No Brasil, o primeiro gênero teatral a acolher artistas com identidade de gênero não-normativa foi o teatro de revista por volta dos anos 40. Além do teatro de revista, os números de plateia do Vivencial eram influenciados pelos Dzi Croquettes, que haviam surgido em 1972 no Rio de Janeiro. Nem tudo era totalmente novo, mas também nunca foram uma cópia. “Hoje somos santificadas, mas sempre fomos mesmo demônios. No passado nem todo mundo queria chegar perto. Como o elenco não era de atores profissionais, nem sempre éramos respeitados.” conta Celibi.

Trecho do filme, Vivencial I por Jomard Muniz de Britto

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Henrique Celibi, 1978

Depois de quatro anos intensos e mais de trinta espetáculos, o Vivencial foi fechado no início de 1983. A censura e repressão militar, falta de investimento e conflitos internos acabaram sendo mais fortes. Já há algum tempo estava acontecendo uma dispersão do público e do interesse, por conta da fundação de casas parecidas em Natal e Fortaleza. Apesar dos altos e baixos, a trupe continua referência para o teatro, cinema e cabaré do país até hoje, inspirando diversos trabalhos artísticos e pesquisas acadêmicas. Um dos exemplos mais conhecidos, o filme Tatuagem de Hilton Lacerda, é uma ficcionalização da trajetória e universo do Diversiones que entrou na lista da Associação de Críticos dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Mesmo com as dificuldades do abandono social, o grupo foi uma escola e refúgio para muitos artistas com expressões não-conformes. Cheio de contradições e paradoxos e abertamente discutindo temas considerados tabu para a época, o Vivencial entrou para a história. João Silvério Trevisan, escritor e pesquisador brasileiro que teve seus contos adaptadas pelo Diversiones, reflete: ”Um dia o Vivencial acabou. Sua ambiguidade se esgotou, sua originalidade também. Não sei até que ponto o sucesso foi responsável por seu fim. Arrisco a dizer que não conseguiu sobreviver porque se aproximou demais dos centros de poder e, com isso, abandonou a difícil arte da corda bamba. Ao absorver sua proposta, a sociedade cooptou o grupo e transformou num modismo rapidamente exaurido. Assim confiscou o passaporte para a poesia”.

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Beatas na peça Os Filhos de Maria Sociedade, 1980

Matéria no Lampião da Esquina, 1979

Cronologia de Espetáculos:

1974- Vivencial I / Genesíaco - Livro do Gênesis / Madalena em Linha Reta / João Andrade em Conversa de Botequim / Auto de Natal

1975- O Pássaro Encantando da Gruta do Ubajara / Nos Abismos da Pernambucália

1976- Vivencial II / 7 Fôlegos

1977- Sobrados e Mocambos / Viúva, Porém Honesta

1978- Repúblicas Independentes / Darling

1979- Bonecas Falando para o Mundo / Ensaios Espontâneos / A Loja da Democracia / Perna, pra que te Quero?

1980- Parabéns pra Você / Notícias Tropicais / All Star Tapuias

1981- Rolla Skate / Nós Mulheres / Em Cartaz, o Povo / The Brazilian Tropical Super Star / Utilidade Pública

1982- Guerra das Estrelas / Os Filhos de Maria Sociedade / Ôba Nana... Fruta do Meio / O Pastoral Culturil das Meninas do Brasil / Assim é Peia / Mar e Cais

Referências de Pesquisa:

ARAÚJO, Matheus. Uma casa para o Vivencial Diversiones, 2015. 

BARROS, Isabelle. Imagens afetivas do Vivencial são publicadas em livro nesta quinta, 2016.

GRUPO de Teatro Vivencial. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021.

TREVISAN, João Silvério. Devassos no Paraíso: a homossexualidade no Brasil, da Colônia à atualidade.

TREVISAN, João Silvério. Vivencial Diversiones apresenta: frangos falando para o mundo. Lampião da Esquina

SANTOS, Rogério. Vivencial Diversiones: teatro como resistência e performance de gênero, 2018.

Programas Vivenciais, 1981

Celibi e Pernalonga na peça Nós Mulheres, 1981