Brasil, Campeão Mundial de Travestis, Fotografia: Otavio Guarino, 2019

VICENTA PERROTTA

Campinas, SP, 1979

Vicenta Perrotta é artista, estilista e ativista. Seu trabalho parte da ideia de transmutação têxtil para reinventar conexões afetivas, corpas e formas de produção de moda. Em 2013, fundou o Ateliê TRANSmoras, que organiza e capacita pessoas trans e travestis com oficinas de corte e costura para geração de renda e autonomia. O projeto já impactou milhares de pessoas através de suas ações. As peças podem ser compradas em: www.usevp.com

entrevista por Igor Furtado, publicada em 26/11/2020

Vicenta Perrotta
Vicenta Perrotta
Vicenta Perrotta
Vicenta Perrotta

Backstage da Casa de Criadores 45, Colagens: Victor Reiz, 2019

Como foi sua infância e quando surgiu o seu interesse por moda?

É aquela história que já tá sendo contada há muito tempo e que é repetitiva. A minha família não me aceitava. Meu pai sempre foi um ausente irresponsável, que anos depois vendeu a casa e deixou eu e minha mãe na rua, dependendo de familiares e amigos. Na escola, fazia testes vocacionais e nunca me enquadrava em nenhuma profissão. Para muitos é um lugar "seguro", mas para pessoas trans essa segurança não existe, por conta de processos genocidas, dos pactos reproduzidos que impõe formas brancas e cisgêneras de ser. Ali eu já não correspondia a várias dessas normas e sofria as consequências. No começo dos anos 90, quando eu estava na terceira série, me chamavam de Cazuza. Era a época em que ele estava morrendo de AIDS. Foi também quando a Madonna lançou a Blonde Ambition Tour, cantando Express Yourself. Eu dançava num palco na hora dos intervalos e os alunos ficavam me ridicularizando, chegaram até a me apedrejar. Foi escapando que comecei a me interessar por moda, com o sutiã de cone do Jean Paul Gaultier, com os videoclipes e outras referências musicais. 

 

Como foram as suas primeiras inserções no mercado de moda?

Fui crescendo, estudando e desenvolvendo minhas pesquisas em moda. Um dos meus primeiros trabalhos foi numa loja de shopping, onde tive contato com o lado de negócios, aprendi a dialogar com público, montar vitrine. Nessa época comecei a produzir uns acessórios com sementes e pesquisar a origem delas. Foi um processo de troca com o meio ambiente e de entendimento de como a ancestralidade lidava com o "consumo" de uma forma totalmente diferente, que foi sendo apagado ao longo dos anos. É sobre uma troca justa, em que o tempo é fundamental; como ter que esperar a semente cair, porque se você retirar antes, ela apodrece. Só que chegou um inverno em que as biojóias deixaram de ser tendência e vender bem. Tive que buscar novas formas de produzir, passando a explorar a cerâmica, papelão revestido de tecido e bordados. Aos 27 anos, me internei numa clínica de reabilitação e lá fiz um curso com Rodrigo Robson, joalheiro incrível que me ajudou na construção de uma coleção. Quando vendi tudo, consegui começar a desenvolver as primeiras roupas, ainda com a ajuda de uma costureira. Só que já existia uma vontade de eu mesma costurar, então aprendi a usar a overlock e fazer patchwork, reutilizando peças descartadas e criando estampas de retalhos. Depois de várias idas ao Brás, onde comprava tecidos, descobri que eles jogavam fora muitos sacos com sobras, então ia sempre pegar esses restos. Passei a postar minhas peças no Orkut e Flickr e a vender numa feira de novos estilistas. Logo depois, comecei uma parceria com uma amiga, Rubia. Era um projeto social e político que pensava sustentabilidade e consumo consciente. Ela me apresentou o Beto Lago, dono do Mercado Mundo Mix, que me convidou para ser expositora. Foi quando minha carreira realmente começou a se expandir.

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Desfile Onde Estão As Travestis?, Fotografia: Marcelo Soubhia/ Fotosite, 2018

Desfile Brasil, Campeão Mundial de Travestis, Fotografia: Marcelo Soubhia/ Fotosite, 2019

Como se deu o encontro com as várias colaboradoras da marca?

Na época do Mundo Mix, havia feito o primeiro desfile sem gênero de rua. Foi quando tive a oportunidade de entender melhor as corpas que eu estava vestindo e que me influenciavam esteticamente. Depois, com a moradia da Unicamp, tive contato com outros fluxos de pensamento, que me fizeram reestruturar o que eu entendia em diversas dimensões, inclusive enquanto roupa. Foi um momento em que comecei a me entender como arte-educadora e quis multiplicar conhecimento e informações, passar adiante. A própria arquitetura da universidade, que havia sido pensada por um comunista, era voltada para o convívio e troca. Comecei a entender o poder da estética enquanto forma de comunicação e até mesmo dominação, e a influência dela no campo cognitivo, nos processos de vida e morte. Também entendi que a arte e a costura poderiam ser processos de cura e libertação desse sistema capitalista tóxico que insiste em nos colocar no buraco. Passei a dar vários cursos no SESC e a jogar tudo na internet, o que acabou gerando uma identificação e movimentação de várias pessoas trans que passei a conhecer, inclusive bem mais novas do que eu. Isso formou uma rede de múltiplas colaborações em design, styling, maquiagem, produção. Nunca fiz algumas dessas coisas eu mesma justamente porque gosto dessa soma e deslocamento de novos olhares. Tentamos sempre pensar uma dinâmica de economia circular, de travestis tendo umas as outras como referências.

Pode contar um pouco mais sobre o Ateliê TRANSmoras?

O Ateliê começa em 2013, justamente quando ocupei essa sala vazia da Unicamp. Acho que fiquei uns dois anos trancada costurando. Ao longo desse tempo tive que construir relações para conseguir me manter e incluir outras pessoas. Foi nesse processo que entendi a importância do acolhimento e fomos, dentro dos esquemas possíveis, recebendo algumas manas que também estavam sem ter pra onde ir. Aos poucos, elas viraram minhas assistentes e construímos nosso trabalho coletivamente, sendo aceitas em editais e chamadas, fazendo os desfiles e cursos. Com Rafa Kennedy e Antônia Moreira na produção executiva e gestão do Ateliê, colaboramos com casas de acolhimento, como a Sem Preconceito e Casa Chama, com o festival Marsha e os coletivos Loka de Efavirenz, FudidaSilk, Animalia, TraveShow, entre vários outros. Hoje, o projeto é um ponto cultural de referência para pessoas trans na cidade de Campinas. Estamos expandindo cada vez mais e em breve teremos um novo ateliê em um terreiro na rua de cima, regido por Dil Vaskes e Pretynha.

Qual desfile mais te marcou numa dimensão pessoal e profissional?

É difícil escolher porque todos os projetos são importantes e reverberaram de várias formas incríveis. O Travesti Viva surgiu a partir de uma residência no Atêlie Vivo, dentro da Casa do Povo, onde fomos chamadas para dar oficinas. Eram 46 modelos, diferentes alas e equipe de maquiagem totalmente trans. Falamos sobre HIV, ancestralidade, genocídio e saúde. Nossa estreia na Casa de Criadores, Onde estão as Travestis?, foi o segundo com a Manauara Clandestina na direção criativa. Acabou se tornando um grande marco que fez com que saíssemos em vários jornais e revistas e recebêssemos convites para fazermos outros desfiles com verba. Houve também o desfile na escadaria, que foi muito importante para o coletivo, no entendimento de cada uma enquanto artista. Trouxemos nossas individualidades e construímos juntas uma encruzilhada futurista, dividindo memórias e vislumbrando um novo projeto de vida. O último foi o Brasil, Campeão Mundial de Travestis, que ressignifica uma capa do jornal Lampião da Esquina. Ele surge a partir de um financiamento coletivo e de uma oficina de 3 meses no Instituto Tomie Othake. Convidamos 9 designers para apresentarem seus trabalhos e 11 artistas plásticas para desenvolverem máscaras para a ala de masculinidades. Muitos críticos nos perguntavam quando as modelos iriam estar bonitas, então abrimos com a ala Fake Fashion Show, em que questionávamos a ideia de beleza e do porque dessas travestis mais próximas do estereótipo de uma modelo não estarem inseridas em outros desfiles.

Apesar do seu trabalho refletir sobre reaproveitamento e lixo, você critica o termo upcycling.

Que caminhos você encontra para se afastar da colonialidade dos modos de produção?

Nosso trabalho não condiz de nenhuma forma com um processo de produção industrial.Acreditamos no trabalho não como uma forma de tortura e submissão, mas sim um mecanismo de transformação da sociedade. A partir do acúmulo de informações e mutações, surge a proposta da Bioncinha do Brasil, de refletirmos e nos apropriamos do lixo enquanto potência, já que assim como as corpas trans, é descartado e tem menos valor para a sociedade. Nós entendemos upcycling enquanto um termo binário e colonizado que não condiz com o que estamos construindo. Por isso pensamos no termo transmutação têxtil, que reflete nosso processo local e não-cisgênere. Durante a pandemia, desenvolvemos o projeto Semente, onde ensinamos a produzir moletons-cachecóis a partir de peças que tivessem no armário. Acredito que é a partir desse processo de educação travesti que conseguimos formular novos caminhos e propor soluções.

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Projeto Semente para Fort Magazine, Fotografia: Cassia Tabatini, 2020

Qual o seu entendimento sobre produto e acabamento, tão vigentes na hora de determinar "qualidade" na moda?

Os acabamentos padrão vem associados a um processo de higienização social, de valorizar uma peça mais "limpa", por isso penso no borrão. Hoje, a produção em massa anda junto de um descarte excessivo. Qual o sentido de se buscar esse acabamento determinado pela indústria? Tento construir uma estética em que as costuras estão para fora, sem anular as camadas do meu processo. Penso por exemplo na cor da linha, na tentativa de buscar uma beleza, mas não uma beleza imposta pelo outro. Não acredito em defeitos, mas em efeitos. Não critico as estilistas que optam por esses acabamentos mais convencionais, até porque existe a dimensão de caimento que é diretamente influenciada por essas decisões e técnicas. Entretanto, acredito que não faça sentido buscar por uma "qualidade" fruto de trabalho escravo ou exploração. Busco acima de tudo um produto confortável, que proporcione libertação e possa questionar essas violências.

Você acredita que as produções têxteis se tornarão cada vez mais industriais e globais ou caseiras e locais? Quais são suas referências de caminhos possíveis?

Eu nunca havia pensado na possibilidade da quebra da indústria fast fashion, mas acho que agora vamos ter que rever a nós mesmos e ao nosso consumo. Como a sociedade neo-liberal tem uma memória curta, tenho medo de que esses processos morram, mas acredito que a partir da expansão do nosso projeto e dessa juventude que está pensando uma transmutação têxtil, as coisas possam vir de outra maneira no futuro. Penso muito sobre como podemos construir um meio humanizado, sem compactuar com essa produção de morte. Acho sim que o local vai crescer, as pequenas marcas, até porque já entendemos que desenvolver nosso trabalho, seja independente ou coletivo, é muito mais interessante do que ser funcionária para alguma empresa. Só que não podemos banalizar, porque muitas pessoas não tiveram essa oportunidade e tão na industria se fudendo. Acredito que vá chegar um momento em que vai haver um levante. As pessoas vão cobrar um posicionamento e revisão ou então quebrar tudo. Isso já vem acontecendo de certa forma. Nesse sentido, algumas referências para mim são Igi Ayedun, Jota Momabaça, Coletivo Cabeças, Gustavo Silvestre, Diran Castro e várias outras manas de quem sou próxima, que estão nessa investigação muito interessante de novos processos e outras estéticas.

Vicenta Perrotta
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Vicenta Perrotta
Vicenta Perrotta
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Backstage de Brasil, Campeão Mundial de Travestis, Fotografia: Zé Takahashi/ Fotosite, 2019

A indústria tem uma fixação pela juventude. Você sente uma pressão em se manter jovem? Como você lida com o envelhecimento?

São acúmulos de vivências né, acho que por conta disso tenho a obrigação de trazer o embasamento com resultados, e isso de alguma forma é envelhecer. Porém, a questão da juventude é importante, de trazer aquilo que é novo. O novo sempre vem e traz consigo gás. Acho que é importante nos alimentarmos e nutrirmos disso, não nos fecharmos. O processo cristão e biblíco que é do início, meio e fim. Já eu, tento pensar nas efervescências e a partir do acúmulo propor a troca, me tornar "mentora". Tenho achado envelhecer um processo desafiador, até porque as minhas referências de infância, como a Madonna, envelheceram mal. Tenho medo de virar uma otária. Acho que por isso, busco um processo que não chegue ao fim. Temos que estar sempre atentas. É sobre ir contra a expectativa da sociedade em tornar nosso corpo ainda mais vulnerável, pensar formas saudáveis de envelhecer. Meu processo artístico traz esse diálogo, de ir contra esse sistema de moda que mata aquilo que é ancestral.

Qual o seu próximo projeto e o que você espera alcançar a longo prazo?

Agora estamos finalizando o próximo desfile que será virtual, em vídeo, e será apresentado no site da Casa de Criadores. Quero começar a fazer algumas residências artísticas para potencializar tudo que venho construindo durante essas temporadas. A proposta é construir uma carreira internacional, conseguir ganhar mais dinheiro e um alcance cada vez maior da minha arte. Meu plano a longo prazo é construir uma escola e centro pedagógico de transmutação têxtil, um lugar onde eu vá poder acolher pessoas trans e criarmos juntas um novo estilo de vida, de outras construções e de cura da cisgeneridade.