Retrato de Ventura Profana, Registro de Gê Viana, 2017

VENTURA PROFANA

Salvador, BA, 1993

Filha das entranhas misteriosas da mãe Bahia, donde artérias de águas vivas sustentam em fé, abunda. Ventura Profana profetiza multiplicação e abundante vida negra, indígena e travesti. Rompe a bruma: erótica, atômica, tomando vermelho como religião. Doutrinada em templos batistas, é pastora missionária, cantora evangelista, escritora, compositora e artista visual, cuja prática está enraizada na pesquisa das implicações e metodologias do deuteronomismo no Brasil e no exterior, através da difusão das igrejas neo-pentecostais. O óleo de margaridas, jibóias e reginas desce possante pelas veredas até inundá-la em desejo: unção. Louva, como o cravar de um punhal lambido de cerol e ferrugem em corações fariseus.

entrevista por Igor Furtado, publicada em 28/05/2020

Lugar de Falo - Colagem digital, 2017

Batismo, um estudo em vermelho - Colagem digital, 2017

De que formas o evangelho moldou a sua infância? Quais são as particularidades da igreja batista?

Mona, sou uma boneca de berço evangélico, como dizem. Antes de completar meu primeiro mês de vida, já havia sido apresentada ao senhor e à congregação no templo da primeira igreja batista em Catu, cidade natal de meus pais e onde vivi até os dez anos. Tudo que sou está fundamentado, justificado e alicerçado ao evangelho, portanto não só minha infância foi moldada na fé em Cristo como todas as minhas experiências são plasmadas diante de uma visão, de um lar, de uma cosmogonia cristã/paulina. Batista & baiana. É crucial farejar o exórdio batista em solo baiano, de tal modo, saber detalhes sobre a descoberta e a vanguarda da exploração de petróleo em território nacional, para compreender melhor de onde e de quem venho. Salvador, terra onde ergue-se a primeira igreja batista da nação, terra onde foi perfurado o poço pioneiro de petróleo do Brasil, terra mãe do barro do qual sou feita vaso, lá foi onde nasci. O credobatismo, é a ordenança primordial, donde deriva-se a denominação da doutrina: ser lavada, passar pelas águas, declarar ao mundo a morte da carne: mata-se o velho homem de pecado para que renasça espiritualmente uma nova criatura em (imitadora de) Cristo Jesus, “quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado” (Mc 16:16). Isto posto, a aceitação das Escrituras Sagradas como única regra de fé e conduta; o conceito de igreja como sendo uma comunidade local democrática e autônoma, formada de pessoas regeneradas e biblicamente batizadas; a separação entre igreja e Estado; a absoluta liberdade de consciência; a responsabilidade individual diante de Deus; e a autenticidade e apostolicidade das igrejas são os princípios defendidos pelos Batistas. 

Naquela época a igreja representava uma forma de identificação, repressão ou os dois ao mesmo tempo? 

Fui muito feliz na igreja, também muito ferida. Sinto que isso se repete também em relação ao mundo. Diz-se mundo ou secular aquilo que não é igreja, ou que não está em Cristo. Muitas feridas, mas muita graça. O diferencial nesse quesito foi conhecer a verdade e por ela ser liberta. Me aproximar da natureza de Cristo, prevista por Isaías em seu livro (recomendo a leitura do capítulo 53), aprofundar-me nos estudos do evangelho de João (dica missionária certeira de minha vó Margarida), para assimilar com mais precisão a missão de Jesus e reconhecer nela a mim, foi o que me salvou. A partir daí, meus olhos foram arregalados para os desafios do meu próprio chamado ministerial. 

Ventura Profana

Labuta Pentecostal Pro Óleo Derramar, 2020

VideoClipe de Eu Não Vou Morrer, 2020

Como foram seus primeiros contatos com artes? 

Durante minha infância participei das montagens teatrais da PIB-Catu, sobretudo nas campanhas estaduais, nacionais e internacionais de missões, que fazem parte do calendário anual da Convenção Batista Brasileira. Tinha o sonho de integrar o ministério de dança comandado por Suleide, uma mapoa que sempre cantava nos cultos de domingo à noite (certeza que ela foi minha primeira diva pop). Nessa época, cantava muito com uma querida vizinha, que era da Universal. Do lado da nossa casa tinha uma laje abandonada onde plantei meus primeiros sonhos de palco e plateia. Sempre desejei ser uma artista. Óbvio que não fazia ideia da armadilha, da falcatrua onde me meteria. Nesse tempo a Rede Globo influenciava completamente os sonhos e ideais da gente, no interior, então desejava conhecer o Rio de Janeiro, o que acabou de fato acontecendo. Esse fato muda toda a minha história, transforma minha família pra sempre. Nos tornamos mais uma família nordestina em diáspora no frio sudeste. A partir daí fui sendo conduzida por caminhos que desaguaram-me na labuta das artes. É importante entender que existem aí duas vias e um entroncamento delicadíssimo entre elas. A arte não é a boa moça que me alimentará, sarará minhas feridas e me receberá em sua casa de bom grado. Entretanto, no caminho da arte, reconheci her/manas que dia após dia me fizeram prosseguir, guiar feito bicho, respirar, sentir e decodificar os sinais divinos, nessa pista elas me nutrem. Nesse caminho, achei a mim. Teci malhas de amor pro corpo que é habitação de minha alma. Foi por aí, pelo cu, foi ante a bunda que reencontrei à Deus. Onde nosso amor se restaurou. É babado, mona. Odeio a arte, lugar inventado, reservado, composto pro corpo e ser branco. Quando digo que é armadilha, digo porque é onde a branquitude se alimenta, suga, rouba e debocha da magia negrayoriginária, essa merda é uma ilusão. Um ringue. É colonial, faz parte desse projeto, é pilar desse plano. Não confio na arte. Mas esse foi o caminho onde me agarrei, o campo de batalha que acato e onde concentro meus esforços para rever tempos livres, verter vida transtravesti negra y originária. Estratégias para/de/na guerra. 

Morar e transitar por diferentes cidades afetou o seu trabalho de alguma forma?

O Rio de Janeiro escancaradamente ferroou toda minha história, desde quando lá passei a viver, aos doze. Demorei anos pra perceber a porção de veneno e rancor acumuladas em mim e que em diferentes âmbitos atingiram e assolam minha família, que ainda vive na cidade. Paris, Alcântara, Itacajá, Guriri, Alagoinhas, Londres, Pirapora, São Paulo, Lisboa, Belo Horizonte, ser e estar por essas terrastempos afetaram-nos, à Ventura, à quem matei, ao trabalho em viver, ao trabalho de matar. Todas as movimentações, tudo que vi, tudo que experimentei, quando experimentei, o que senti ao experimentar e as razões que me levaram a degustação, é disso que somos feitas. Odeio o Rio de Janeiro sempre por despedaçar vidas, famílias, sonhos, eternidades negras. Odeio Belo Horizonte por seu silêncio racista gritante maléfico, essa cultura do comer quieto me mata, mas não morro. Infernizei Lisboa, por todo instante que pude. Percebi em São Paulo que estava solta e só, no mundo, mas testemunhei o rasgar dos véus de outras planetasplantações, quando amei cercada de travas. Brasília também me fez outra. Esse é um dos meus desejos mais profundos, não deixar de rodar. Olhe, quando tinha oito ou nove anos painho me botou num caminhão com um dos amigos dele rumo a São Mateus onde minha vó mora, são dezesseis horas de viagem… Desde então a estrada é minha sina. Quando cheguei ao Rio pela primeira vez também foi num caminhão. Um dos meus planossonhos é virar caminhoneira. 

Ventura Profana

Mulher Virtuosa - Colagem digital desenvolvida para capa do single Resplandescente, 2019

Ventura Profana

Novo Testamento - Colagem digital a partir das notas encontradas em minha primeira bíblia e na bíblia principal de minha avó materna, 2019

A restituição se dará a partir de que processos? Você vê isso se dando a partir de movimentações individuais ou coletivas? 

De, e em todos que forem possíveis e imagináveis. A começar pela imaginação. Crer na restituição é imprescindível, persegui-la, estabelecê-la como objetivo. Como cristã, defendo que a salvação é individual (não damos conta de salvar ninguém além de nós mesmas). A mensagem de salvação é para todas, mas o plano de salvação é para as que estão feridas, cansadas e sobrecarregadas. A restituição é para todas que creem no poder, na força, no amor, na totalidade de Deize, para as filhas das terras feridas, para as herdeiras das promessas de vida e eternidade. A restituição para as que foram perseguidas, as que foram saqueadas, ceifadas pelo domínio maligno colonial da branquitude machista. Assim sendo, a restituição (diferentemente da salvação) se dá necessária e substancialmente somente quando coletivizada. Do contrário, seguiremos a lógica pecadora colonial branca. A restituição não é humana, nem virá pro ser humano. 

Você acredita que se a figura de Jesus e o Cristianismo fossem destituídos de poder ou ressignificados, dariam conta de transformar a vida das dissidências as quais narrativamente pretendem representar? Essa libertação necessariamente terá que se dar pelo sacrifício, como ataque e defesa, ou esses meios só cabem a eles?

Eu sou Cristo. Está em mim o castigo que traz paz à branquitude. São irmãs minhas, as que por vós são afligidas, reputadas em opressão e feridas de deus. É vossa, a iniquidade que nos mói. Cristo é a trava de dores, desprezada, morta antes do trinta e cinco anos. Preto experimentado nos trabalhos. (Is 53:3) Somos nós, pretas mulheres travas as mais rejeitadas entre os homens. A era cristã é o tempo da cruz. A lei da condenação sobre nós, Cristo. Todo o processo colonizador se firma e regozija neste plano, afinado e garantido na doutrinação escravocrata paulina, que legitima a submissão feminina e defende entre outras, a obediência integral ao Império Romano. Monas, Paulo era Saulo, perseguidor dos crentes em Cristo Jesus, homem da inteligência de Roma, escritor de metade dos livros e cartas do Novo Testamento. Quando revelo-me Cristo, insistem em matar-me, conduzem-me aos açoites à Gólgota. Roma é quem me mata, e a multidão incitada pelos principais sacerdotes (Mr 15:11) opta pelo assassino Barrabás, a mim, que vos trago libertação. Durante os dois últimos milênios a igreja católica mancomunou-se em concílios, de Jerusalém (At 15,1- 40) ao Vaticano (1962-1965), elaborando minuciosamente os dogmas "cristãos {façamos um acordo e passemos a chamá-los dogmas romanos}", também conhecidos como a coluna da fé católica, violentamente transmitidos, de modo viral, ao redor do globo. Será a viacrucis então o preâmbulo deste caminho de sangue e morte? Talvez a maior manobra colonial - aprimorada no decorrer dos séculos, sobretudo entre os períodos medieval e renascentista - seja a elaboração/padronização da figura pintada e esculpida de Jesus. A vida, torna-se Deus, Deus torna-se Senhor. Matam-me negra e travesti e ressuscitam-me macho e branco. O lobo se apossa da pele do cordeiro. Nesta hora, expedições militares sob o comando católico e alimentadas pelo interesse nobre feudal definham vidas, saberes, sonhos, almas e terras por todos os cantos da terra. As cruzadas bandeirantes foram abolidas? Certamente não. Como também não foram dissolvidos os acúmulos imensuráveis de dor e sofrer causados pela escravização. Pelo contrário, o Senhor reafirma-se como Deus soberano, Senhor dos Senhores, Senhor dos Exércitos, Pai da eternidade, Príncipe da branca Paz, ocupa também o espaço de condutor espiritual dos povos, na representação do Pastor (Sl 23:1). Nem mesmo as reformulações cristãs advindas do Protestantismo deram conta de sanar tais males. Anos atrás, cantei que nossos corpos (trans, travestis, negres y origináries) não haviam deixado a cruz, os cravos permaneciam conjurando minhas mãos ao madeiro. Não sou macho, não sou branca, não me embranquecerei para ser salva, como Paulo sugere, este é o recado de Jesus para as nações. A santidade é um escudo/oásis para a branquitude, onde debruça-se outra manobra colonial bem sucedida: a implementação da seguinte ideiasentimento: Tudo que não é branco é do Diabo. O diabo espia-se dos pecados, ao projetar no outro seu próprio reflexo. A branquitude não consegue lidar com sua culpa diabólica. É necessário que a branquitude reconheça que o cristianismo é uma invenção mortífera, alimentada por uma sede doentia por poder, por soberania sobre todo ser que vive e respira. O cristianismo é a medula colonial. É cruel porque somos educadas a evitar, em todas as instâncias, que a face da tortura recaia sobre o corpo de um homem branco. No entanto, é irrelevante a dor das negras Marias em ter suas crias cortadas da terra dos viventes incessantemente. Nosso choro é insignificante. Mas vou, venho e volto, chorando, para dizer-lhes que somos o caminho das verdades de vida. Somos nós Deus {façamos um segundo acordo e passemos a chamá-la Deise}, cordeiras sem senhor. A via dolorosa, o chicote, as coroas de espinhos, o tronco, o calvário, os porões e senzalas, esses meios, nesses arranjos sórdidos só cabem a vós. Entretanto não renego a guerra, longe disso. Buscamos ininterruptamente percursos que nos apresentem outros preceitos que não os do inimigo. Outros modos de existir em plenitude com todo ser que respira. Armamos-nos noutro sentido, habitamos noutros tempos, reconhecemos-nos noutros termos. É o axé que nos salva e liberta. Quem dará crédito à nossa pregação?

Ventura Profana

A Primeira Missa no Brasil, colagem digital a partir da pintura de Victor Meirelles, 2017

Como é seu processo de pesquisa? Você costuma olhar para o trabalho de outras artistas em busca de inspiração?

Cuido para que meu coração e meus sentidos não se endureçam. Toda essa trama que tenho tecido, exige um condicionamento esportivo, sou uma atleta das artes, moninha. Mergulho nos mais profundo que posso, para colher o precioso preciso, o que leite mais gostoso. Tesão é essencial. E amor. Me inspiram aquilo que amo, como minhas amigas. Cassi, Casti, Rainha, Jade, Bianca, Manauara, Williane, Wallinha, são nelas que busco força para prosseguir. Elas que me excitam no diálogo, nas horas, no mais íntimo do meu ser. É onde está minha alegria e meu refúgio. Bianca Kalutor como minha mãe, é general nas batalhas, quem me mantém na linha. No fim das contas, o mistério é como preparar uma vitamina. Carinho nas medidas, na escolha dos ingredientes, a porção exata de sal e/ou açúcar… É cozinha pura. Conheço muito do universo gospel das últimas décadas, passei dezoito anos imersa, dedicada e apaixonada pela cultura cristã. Aos poucos vou migrando, sincretizando, atravecando esse saber. O canto das mulheres negras me remexe e salvaguarda, Aretha de uma Franklin, Elza de uma Soares absurda e inigualável, Nina de uma Simone, Etta James, Xênia França, Deize Cipriano, Deize de uma Tigrona, Tati QuebraBarraco, Lauryn Hill, Mc Carol, Alcione, todas essas bonecas nutrem e medicam minha alma. Sou devota das meninas Knowles nervosa, Solange e Beyoncé fodem muito meu cu. Não consigo deixar de deitar pra Nívea Soares, hoje em dia ela é a única cantora gospel em quem acredito. Tem uma ministração dela contra o racismo e as feridas coloniais em seu segundo álbum que me arrepia inteira, nunca vi ninguém além dela meter uma dessas dentro de uma igreja, sobretudo na Igreja da Lagoinha, capitaneada pela Sinhá Ana Paula Valadão e sua família feudal. Jota Mombaça, Bruna Kury, Michelle Mattiuzzi são como nortes, estrelas-guia no meu fazer artístico... Camila Melchior, Pietra Sallisa Rosa, Gê Vianna, Davi de Jesus do Nascimento, Keroline Kemblin, Guerreiro do Divino Amor são exemplos de artistas que influenciam, mexem com meus desejos, me deslocam por aguçarem meus sentimentos. Jup, Verónica, Linn, Alice Guél, Monna Brutal também provocam em mim borbulhos vitais, seus trabalhos são bálsamo pras que anseiam por vida em meio à guerra. E por último, e longe de ser menos importante, minha parceira de peleja, podeserdesligado (Jhonatta Vicente) com quem divido a empreitada maternal no projeto Cântico dos Cânticos há mais de dois anos, é lindo ver o desenrolar de nossa relação, nosso amadurecimento nos palcos, no estúdio, nos bastidores nada glamurosos da carreira musical. É dessa união benta que nasce um ministério de louvor comprometido em espalhar a mensagem de vida, poder e glória às cativas. Mas Mainha e minha vó Gaída, as lembranças de minha vó Regina, de minhas bizas Joana, Boa e Eunice são quem me sustentam, antes mesmo que pudesse respirar.

Ventura Profana

Série Coisa Séria - Colagem digital, 2017

Estudos sobre Edificação- Colagem digital, 2018

O que significa "evangelizar" para você?

Evangelho significa boas novas, consequentemente evangelizar é anunciar, espalhar notícias de tempos vitoriosamente vívidos, abundantes, verdejantes, novas de salvação, num contexto onde a lei é a condenação. Neste tempo maligno instituído pela demoníaca branquitude a melhor das notícias é o próprio fim desta era, deste mundo, desta lógica, desta invenção, desta ótica, desde testamento. Por isso, creio e prego o Evangelho do Fim. Por tal motivo é necessário divinamente transicionar-se. Nesse sentido o batismo é inadiável e pressuroso. Deve-se matar o macho de pecado, branco de morte, matar quaisquer resquício de suas palavras plantadas no coração de nossas terrasviveiros. Lembro quando minha vó Margarida me levava pras evangelizações, por todos os cantos, em todo tempo, nas casas de todo tipo de gente, as sementes eram lançadas por aquela que é meu maior exemplo de fé, força e compromisso, meu grande amor, maior combustível pras batalhas, foi ela, quem me ensinou a cumprir a maior atribuição dada por Jesus, ao povo de "Deus": Ide por todo mundo e pregai o evangelho à toda criatura.

 

Como se dão seus processos de escrita? Fala um pouco sobre seu primeiro livro "A cor de Catu".

O livro na íntegra pode ser encontrado em (https://issuu.com/porventura/docs/acordecatuimpresso_1e0636c3d9d31a)

É babado, a escrita é uma condição primária, crucialcruel compulsória deste tempomundo colonial, cravar palavras, cravar tudo, pra poder, não ter dúvidas, pra legitimar, fazer ser eterno. Até ontem a maior parte dos indivíduos na minha família eram analfabetos. Ter um livro publicado foi importantíssimo pra nossa autoestima. A Cor de Catu é minha reconciliação com a raiz, com a terra da qual sou filha. Foi também a despedida, o batismo. Quase não revisito-o, mas nutro muito carinho. Diagramei, ilustrei e compus cada rima de saudade entregues ali. Depois dele renasci profana. Amo brincar com as palavras, desnudá-las, moldar o vazio com a extravagância dos sonhos, medos e desejos meus. Vivi pra poder escrever e transfigurei-me. As palavras transbordaram-me de mim em mim, tornando-me outras, tantas, sonho dos meus sonhos, nem mesma eu pude prever, ainda assim fui e sou a primeira a sonhar. Antes o sonhar, que o senhor.  Ah pois, minha Biza não lia, nem escrevia mas tinha decorado a bíblia de cabo a rabo. Pense aí que a Bíblia é a palavra do senhor. Dedicar-me ao estudo bíblico ferrenho tem sido meu maior prazer, fonte inesgotável de inspiração, é preciso conhecer a linguagem, as movimentações, os segredos, cada gesto do inimigo. Não se produz antídoto sem que o veneno seja bem sabido. Portanto, creio, guio-me e invisto minha horas na lavação de cada letra, de cada oração. De fato, a bíblia é lâmpada para os pés. 

Corpo Universal - Colagem digital, 2018

Autoretrato, 2015

Como você articula sua prática e as demandas de vender seus trabalhos para o mercado das artes visuais? Já se viu obrigada a fazer concessões?

O mercado em si é sempre muito covarde e trapaceiro. Seja o financeiro, o das artes visuais, o da música… Vou reagindo de forma equilibrada, sem iludir-me, não permito que as expectativas invadam-me de modo que minha lucidez seja chacoalhada. Acolho críticas e ensinamentos que me fortaleçam e apontem para possibilidades que não havia notado. Tenho muito respeito pelas pretas e pretos que vieram antes de mim, as que arrombaram as portas, a partir de seus testemunhos adapto e reelaboro estratégias à minha realidade travesti. Faço o possível para ser prudente. Sem desespero. Nas negociações, há casos onde concessões são necessárias, mas há aquilo que não está à venda e nunca estará. Decidi que não morrerei pela arte. 

Qual o seu próximo projeto?

O que não falta é nó pra desatar, demanda pra dar conta e desejo pra sanar. Edificar uma congregação é tarefa de vida, é ministério de mistério. Estamos vivendo, em quarentena, a gestação do que chamei de Traquejos Pentecostais Para Matar o Senhor, primeiro disco de estúdio da união benta com #podeserdesligado. É o desembocar da enxurrada das lições e cantigas brotadas ao longo dos três últimos anos, com cântico dos cânticos. Produzir música sem nenhum suporte financeiro é ter que operar milagre mesmo, é uma árdua missão. Compor, gravar, mixar, masterizar, distribuir, são muitas as etapas até o parto da obra, nessa fazedura houve noites em que duvidei se conseguiríamos gravar. Mas não tem tempo ruim, abrimos mar, andamos sobre as águas, transformamos água em vinho. Exigiu de nós muita concentração e lucidez para que as letras e melodias fossem certeiras e cumprissem a tarefa de fortalecer quem tem de estar firme na guerra. Fazer música é como fabricar bombas caseiras, um processo químico, onde deve-se manejar os ingredientes disponíveis com muita precisão. É tempo de ser nuclear. Atingir o âmago daquelas que carecem da palavra de vida, poder e abundância. Se não for pra ser bálsamo, oásis na vida das que amo, do que adianta? Muitos sonhos, mona, muitos! Muito trabalho pela frente. 

Salmos 23 - Colagem digital para o programa de quarentena do IMS, 2020

Ventura Profana

Concílio das Lamentações - Colagem digital para o programa de quarentena do IMS, 2020

O que considera ser sua maior conquista até agora?

Ser travesti. Amar travestis. Viver por elas, com elas e para elas. Estar viva.

Por último, mas não menos importante, um versículo e um louvor importante para você?

A bíblia é belíssima, vocês precisam ler. Livros reunidos com muita perspicácia, inegavelmente fonte de inspiração. Me leita demais: "Aquelas que habitam no esconderijo da altíssima, à sombra da onipotente, descansará." Poxa!!!! Descanso, proteção e habitação é tudo que elas querem e precisam. E merecem!!! Mas tem uma passagem bíblica que pra mim é a mais sagrada e urgente: "Partindo do cu, tomando-o como alicerce. Assim, quem edifica transcende a cruz. Isto é, a vida está no cu reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadoras da parte do cu, como se a vida por nós rogasse. Rogamo-vos, pois, da parte do cu, que vos reconcilieis com a vida. E foram designadas algumas para apóstolas, outras para profetas, outras para evangelistas, e outras para pastoras e mestras, com o fim de preparar as profanas para a obra do ministério, para que o corpo seja edificado, até que todas alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do cu, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude."Como sou gulosa, ao invés de um, escolhi dez corinhos, quietinha. Quenda: 

1- Portões Celestiais, Rose Nascimento

 2- Jerusalém e eu, Denise Cerqueira

3- Faraó ou Deus, Shirley Carvalhaes

 4- Muita Unção, Cassiane

5- Ricky Dillard & New G - There Is No Way, featuring Nikki Ross (#blackgospelexcellence)

6- You Brought The Sunshine, The Clark Sisters

7- ABC do Crente Fiel, Grupo Ellas 

8- Clame a Deus, Grupo Ellas 

9- Deixo a Tristeza, Raiz Coral 

10- Santificação, Elaine Martins 

O Reino é Delas, Registro de VIDAFODONA, 2017