LUZ DEL FUEGO

Espírito Santo, ES, 1917-1967

No Trampolim da Vida, 1946

Dora Vivacqua nasceu em uma família rica descendente da imigração italiana e era obcecada por cobras desde criança. Com vinte e sete anos passa a se apresentar como Luz del Fuego em teatros, cinemas e circos. Dançando seminua com duas ou mais jibóias, se torna sucesso imediato de bilheteria em diversos países. Ao longo da carreira, também publicou livros e revistas, propôs a criação de um partido político e fundou na "Ilha do Sol", próxima a São Gonçalo, o primeiro Clube Naturalista da América Latina.

publicado em 22/06/2021

Em 1975, Rita Lee lançou Luz Del Fuego: “Eu hoje represento a loucura, mais o que você quiser. Tudo que você vê sair da boca de uma grande mulher, porém louca!”. A música foi uma homenagem para Dora Vivacqua, conhecida pelo nome artístico Luz del Fuego. Luz foi uma famosa vedete que teve seu legado apagado, sendo considerada uma louca sem talento por grande parte da mídia e crítica. Provavelmente seria condenada ainda hoje, já que suas práticas libertárias continuam visionárias. Nascida em Cachoeiro de Itapemirim, em 21 de fevereiro de 1917, foi a décima-quinta filha de Etelvina e José Antônio Vivacqua. Aos três anos, se mudou para uma casa em Belo Horizonte, onde aconteciam encontros frequentados por políticos, artistas e intelectuais como Carlos Drummond de Andrade. Dora logo descobre um serpentário próximo, que se torna seu lugar preferido durante a infância. Anos depois, ao completar quinze anos, recebe a notícia do assassinato do pai e se muda para o Rio. Na nova cidade, passa a contestar cada vez mais a família, entrando numa equipe de circo, costurando fantasias curtas e usando apenas lenços para ir na praia, quando ainda era proibido usar maiô de duas peças e não existia biquíni. Sobre sua relação com a natureza, escreveu: “Não necessita de grande poder de observação para notar a diferença entre uma pessoa criada no confinamento de quatro paredes e outra vivendo ao ar livre, respirando a plenos pulmões, cheirando a sol, exteriorizando saúde e vida por todos os poros; e nas atitudes, no olhar, deixando entrever uma felicidade inata, uma ventura, a razão da nossa vinda à objetivação humana.”

Seu irmão, deputado constituinte, decide mandá-la de volta para evitar escândalos. Dora vai morar com uma irmã e o marido, que passa a assediá-la. Quando flagrado pela esposa, ele faz a família considerá-la esquizofrênica, gerando uma internação de dois meses em 1936. Quando é liberada, vai para a fazenda de outro irmão, onde aparece para um funcionário como "Eva", usando apenas folhas e cobras-cipós nos braços. Ao ser repreendida, Dora agride seu irmão e é internada em outra clínica psiquiátrica. No começo dos anos 1940, após completar os estudos no internato Imaculada Conceição, escreve Trágico Black-Out, um romance noir sobre abuso, prostituição e uma crítica ao conservadorismo. Anos depois, Dora termina o bacharelado em Ciências e Letras, mas opta por seguir carreira artística. Inspirada em um livro sobre sacerdotisas macedônicas e babilônias que praticavam danças com cobras, conclui que jibóias seriam as menos perigosas para treinar e conduzir. Mesmo tendo sofrido centenas de mordidas, mantinha soltas em sua casa um casal de estimação chamado Cornélio e Castorina. Em 1944, com o nome sugerido por um palhaço, Luz Del Fuego estreia no circo Pavilhão Azul. Intituladas Tentação de Eva e Lenda da Cobra Grande, as primeiras apresentações provocaram muito boca-a-boca e cobertura midiática, transformando Luz rapidamente em uma das vedetes mais conhecidas do país, junto de contemporâneas como Virginia Lane e Elvira Pagã, com quem teve grandes brigas.

A Nativa Solitária, documentário de 1954 com direção de Francisco de Almeida Fleming, recuperado pelo Arquivo Público do Estado do Espírito Santo

Em 1945, Luz se apresenta no Panamá, Uruguai e Argentina. No ano seguinte, estreia no filme No Trampolim da Vida e embarca em uma excursão pela América do Norte, onde dança, aprimora estudos e descobre sobre colônias nudistas. Ao torna-se adepta do naturismo, decide ser precursora de sua implementação no Brasil. Em 1948, publica o livro A Verdade Nua, onde lança a teorização do movimento naturista brasileiro e se defende de acusações: "Um nudista é uma pessoa que acredita que a indumentária não é necessária à moralidade. Não concebe que o corpo humano tenha partes indecentes que se precisem esconder". A primeira edição do livro foi apreendida pela polícia, tendo sido republicado anos depois. Nessa mesma época, Luz também funda a Naturalismo, primeira revista do país a exibir genitálias, chegando a ter mais de vinte edições. Em 1950, retorna aos teatros, rendendo muitos lucros ao atrair 100 mil espectadores por mês. Com o sucesso, é contratada para estrelar Eva no Paraíso no Teatro Follies em Copacabana. No decorrer dos anos 1950, realiza apresentações que chegaram a contar com centenas de cobras no Norte, Nordeste e Sul do país, pelos Estados Unidos e Europa e para o Rei Faruk do Egito. Além disso, foi capa da revista Life e protagonizou vários outros filmes como Folias Cariocas e Não Me Digas Adeus. Entretanto, a fama também lhe trouxe vários problemas, como acusações, multas e intimações. Foi detida e teve que se submeter a "exames de sanidade" diversas vezes, como quando se apresenta em carros abertos na Avenida Atlântica ou aparece completamente pelada no Viaduto do Chá.

Luz Del Fuego também tentou se lançar na política, com a fundação do Partido Naturalista Brasileiro, que tinha como slogan, "Menos roupa e mais pão!". Entre as propostas, estavam o fim de restrições ao espiritismo e religiões de matriz africana, a prática de nudismo em família, direito ao divórcio e medidas de proteção aos animais. Em 1950, obteve autorização da Marinha para viver em Tapuama de Dentro, ilha na Baía de Guanabara, próxima a Paquetá e São Gonçalo. Rebatizada de Ilha do Sol, foi lá que Luz fundou o Clube Naturalista Brasileiro, primeiro da América Latina, atraindo personalidades como Ava Gardner, Brigitte Bardot e Lana Turner. Na programação haviam exibições de peças e filmes, esportes e banhos de mar. Luz andava armada e fazia um rígido controle, não permitindo a entrada de menores de idade, bebidas alcoólicas e sexo. Em 1960, foi morar definitivamente lá, passando anos se dedicando à reformas e construções. Em outubro de 65, queixou-se à polícia da visita de malfeitores à Ilha. Meses depois, denunciou crimes na região, inclusive o assassinato de um pescador. Na noite de 19 de julho de 1967, Luz e o caseiro Edigar Lira foram mortos por homens que haviam trabalhado na Ilha e achavam que poderiam encontrar algum dinheiro guardado. O desaparecimento repercutiu nos noticiários pelo país, chegando a ser encarado como golpe publicitário. Os corpos foram encontrados no mar duas semanas depois. No ano seguinte, os assassinos foram condenados a 31 anos de prisão.

Cronologia de Espetáculos e Filmes:

1944- Tudo é Brasil

1946- No Trampolim da Vida

1947-  Não Me Digas Adeus

1948- Folias Cariocas e Poeira de Estrelas

1950- Cutuca por Baixo, Festival de Danças Brasileiras e Eva no Paraíso

1951- É Rei, Sim e Balança Mas Não Cai

1952-  Saúde e Nudismo, A Fruta de Eva (O Nu Através dos Tempos), A Verdade Nua e É Grande Rei

1953- O que é que o bikine tem?

1954- A Nativa Solitária e É Sopa no Mel

1955- Esta Mulher É de Morte

1957-  Cururu, o Terror do Amazonas

1959- Momo e Bambolê, Comendo de Colher e Mulher... Só Daquele Jeito

1960/1- Carnaval da Ilha do Sol

1965- Boas em Liquidação

1969- Tarzan e o Grande Rio

Referências de Pesquisa:

AGOSTINHO, Cristina; PAULA, Branca; BRANDÃO, Maria do Carmo. Luz del Fuego, a bailarina do povo: uma biografia. Editora Best Seller, 1994.

A NATIVA SOLITÁRIA. Direção: Francisco de Almeida Fleming. Produtora: América Films. Brasil, 1954. Curta metragem

MENEZES, Tiago. A verdadeira Luz del Fuego, All Print Editora, 2011

SILVA, Aguinaldo; CARVALHO, Joaquim Vaz. Luz del Fuego, Codecri, 1982

ISSA, Luís Carlos "Última entrevista: Luz del Fuego". O Cruzeiro Nº47 de 1967

Lucélia Santos no filme Luz del Fuego de David Neves, 1982