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LUCAS CORDEIRO

Itapetinga, BA, 1992

Marlizia em Para acalmar a Terra, 2021

Lucas Cordeiro é fotógrafo e artista visual baseado em São Paulo e Salvador. Cria a partir de estéticas afrocentradas que dialogam com temas como ancestralidade, religião, tecnologias e suas intersecções. Usa a fotografia e o vídeo como linguagem artística afim de mimetizar possibilidades entre o real e o virtual.

texto e entrevista por Mirella Ferreira, publicada em 30/09/2021

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Guiado pelo Mistério, 2021

Lucas Cordeiro nasceu no sudoeste da Bahia, entre a zona rural de Caatiba e Itapetinga, e se mudou para Salvador aos 17 anos. Foi criado por sua vó, principal referência para suas fotografias em 35/120mm ou registros com celular; uma anciã rezadeira, lavadeira, figura maior de ligação ancestral, espiritual e afetiva. A beleza e cuidado com os quais se debruçava sobre suas plantas, objetos, casa e família, são parte da inspiração de Lucas, já que pautaram sua infância e adolescência. O primeiro contato com a fotografia aconteceu após sua mãe ganhar uma câmera digital da sua tia. Ele tomou para si como objeto inseparável, criando histórias e cenas, nas quais envolvia suas primas e irmãs. Isso acontecia no mesmo quintal em que sua avó exercia rezas, sendo veículo para caboclos, entidades da mata e da cura, presentes em cultos de religiões de matrizes africanas. Essas vivências permearam ainda mais suas imagens e subjetividade com o seu processo de iniciação no candomblé. ‘‘A experiência mais linda da minha vida foi a minha feitura, ser consagrado ao orixá dono do meu orí... Crio a partir do que vejo. Tem uma experiência minha misturada com a do outro; existe um lugar onde essas trocas conversam e se tocam, criando uma imagem a partir disso, ou materializando algo que já estava presente na minha cabeça ou na minha história. Me sinto uma espécie de veículo, revelando algo ali naquele instante.’’

Ilmara de Nanã (Casa de Oxumaré - BA), irmã de santo de Lucas, em conexão com Dã (cobra) essência do orixá Oxumarê que tem ligação de filho com a orixá Nanã. //

Egbomi Natalice de Yemanjá (Casa de Oxumarê - SSA),  irmã de santo de Lucas, se complementando aos elementos da orixá a qual foi consagrada. //  

Irmã de santo e barco de Lucas, Amanda de Obá, orixá a qual foi consagrada. Leva o àjàpá (cágado) no orí (cabeça), o bicho que corresponde ao Orixá Xangô.

"O orixá pede meu orí, mas o corpo também pede, aquele resgate, aquela memória... O candomblé aparece em meu trabalho como uma forma de devolver todo amor que recebo. É uma extensão da minha construção de vida, um lugar de afetividade com os meus orixás, minhas irmãs, minha comunidade de asè, as trocas, vivência em família, os aprendizados, os elementos, as folhas, os bichos... Tudo isso é um todo, um corpo só." Como nos ensina o asè, tudo tem importância e função e é isso que completa o todo que está em nós, em equilíbrio. "As filhas de santo aparecem no meu trabalho num espaço de integração com os símbolos dos seus orixás. Gosto de mostrar a importância delas se verem sendo representadas com os animais que correspondem aos orixás que foram iniciadas, como são lindas revivendo a história dos seus orixás. É a minha forma de agradecer por estarem em conexão comigo na construção dessas imagens." As filhas de santo se revelam incorporando orixá, natureza, elementos, bichos, dentro do seu espaço de poder, como um terreiro, onde muitas dessas mulheres ocupam cargos de autoridade e são respeitadas pela sua ancestralidade, pela sua sabedoria, pelos seus ensinamentos. Fazendo um recorte de Yá Natalice, fora do espaço de axé, ela pode ser vista como uma senhora comum, mas lá dentro é uma rainha, para ela e sua comunidade, onde sua bênção é pedida onde quer que ela passe. É sobre a potência de estar em seu lugar de pertencimento.

Yá Natalice e Marlizia em Para acalmar a Terra, 2021

Lucas conta sobre a influência visual dos elementos utilizados pela avó. A memória do sangue que escorria na bacia brilhante de alumínio ao sacrificar um animal para o alimento da família, o espaço geográfico, o clima quente da cidade; elementos esses que ganham novas ambientações em suas imagens. "A espiritualidade surgiu para mim na infância. Minha avó recebia e cultuava caboclo, curava muitas pessoas, mas tudo ainda com aquele véu que encobria o assunto. Na adolescência, costumava ir à biblioteca olhar livros sobre candomblé, que me chamavam muita atenção. Quando tinha oportunidade de utilizar a internet, pesquisava, e quando cheguei à Salvador, entendi que era o meu momento de conexão maior com a minha espiritualidade. Nesse espaço de tempo comecei a frequentar a Casa de Oxumarê, onde senti total pertencimento e fui iniciado posteriormente. Quando mulheres aparecem em meu trabalho, parto de um lugar de honra ao feminino. Um movimento embasado na minha relação com a minha avó. De honrar, bater a cabeça, reverenciar, saber de onde eu vim, de onde vieram meus aprendizados, da matriarca que formou minha visão de mundo e por quem tenho grande respeito e agradecimento. Hoje, acho que tem um equilíbrio em meus registos, entre homens e mulheres. Os com homens vão para um caminho da imagem de moda, mas com mulheres as imagens são de outra natureza; tem uma ligação mais espiritual, falam sobre ter sido criado e inspirado por uma figura feminina. Sempre tenho cuidado em pensar como é vista a mulher em meu trabalho, para que elas sejam retratadas em seus espaços, suas roupas, como elas são. Existe a minha história e a delas, e existe esse ponto de cruzamento que a fotografia proporciona.’’

Retrato de Lucas por Rodrigo Sombra, 2019

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Retrato de Súia, vó do Lucas, 2017

Pendor para o brilho barato, 2021

Tatear o passado e suas memórias, cruzar caminhos e misturar experiências, muito embora o seu alcance sempre desague numa nova história, parafraseando Beatriz Nascimento em Orí, sobre os contornos irrecuperáveis que suas mãos tentam alcançar. Nessa tentativa de alcançar algum contorno, se é que possível, Lucas transforma a criação visual numa abertura de caminho ao sensível, entre conexões reais que permitem que a beleza do ser, do sagrado, e suas narrativas, se revelem junto com a imagem. Uma criação sem roteiro prévio, mas que parte de um pensamento visual localizado num tempo espiralar. Os elementos presentes são peças que fazem parte da história do artista e dos fotografados, seja em memória afetiva ou religiosa. Quando esses elementos dialogam com o outro, não existe personagem, o que se mostra é um espaço de abertura no qual Lucas e fotografado se tornam veículos um do outro, criando um lugar legítimo e orgânico, sendo esse, um fator fundamental nessa construção em conjunto. O fotógrafo sai do lugar do voyeur ou do antropólogo — como historicamente aconteceu na fotografia sob domínio da branquitude para com pessoas negras, em registros pautados pela invasão de seus espaços, a partir da construção de uma imagem estereotipada, exótica, num lugar de ‘outro’; sem domínio da própria imagem, sem troca — porque ele é parte dessa narrativa; esses elementos e vivências não são separados da sua vida.

Abraço, 2021