LAÍZA FERREIRA

Nasceu em Ananindeua (PA) e vive em Natal (RN), 1988

Sem Título, Colagem, 2017

Laíza nasceu no Pará e atualmente reside em Natal, onde estuda Artes Visuais na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Seu trabalho parte da pesquisa de memórias ancestrais, recriando mundos através da ressignificação de fragmentos. Investiga suas origens através da fotografia e colagem, instigando e reconectando imaginários para ressignificar dores. Suas obras com frequência surgem de recortes de revistas e livros e elementos autobiográficos, como retratos de família. Mais recentemente, tem explorado técnicas fotográficas e de revelação, experimentos analógicos e naturais, como a fitotipia e antotipia.

entrevista por Igor Furtado, publicada em 29/10/2020

Sem Título, Colagem, 2018

Sem Título, Colagem, 2018

Pode contar um pouco da sua infância e de como surgiu seu interesse pela colagem e fotografia?

Desde criança tive uma relação muito forte com as imagens. Gostava de desenhar na terra, no papel e passava horas imaginando narrativas. A minha mãe trabalhava o dia inteiro e eu costumava ficar com a minha avó. Eu deitava na rede com ela e ouvia as histórias que ela me contava sobre a sua vida em Jambuaçú no Moju. A fotografia sempre esteve presente como forma de registro entre família e amigos. Anos depois, tive a oportunidade de participar de algumas oficinas introdutórias de fotografia que me instigaram a experimentar e me aprofundar nos estudos. Nos processos artesanais fotográficos, pude observar o diálogo com a colagem e fotomontagem dentro do próprio sistema fotográfico, em momentos de ampliação da foto na composição dos elementos, duplas exposições e diversos meios de composição da imagem. A colagem é uma linguagem que me encanta porque me faz perceber a amplitude de possibilidades, tais como o acesso aos materiais de trabalho e a junção desses materiais utilizando campos semânticos distintos. Para mim, a interação com a colagem se deu num contexto político de ruptura e autocríticas em meu cotidiano.

Se mudar do Norte para o Nordeste e entrar na faculdade te afetou de que forma?

Foi um processo árduo, pois enfrentei muitas dificuldades financeiras e emocionais, porém eu precisava desse deslocamento geográfico e afetivo pra multiplicar os meus caminhos e minhas percepções individuais e coletivas. Foi uma trilha de urgência, de encontros necessários pro meu ser. Apesar de estar na faculdade, minha prática no espaço acadêmico é indisciplinar. O campo de força está nas conexões com os nossos, em não se limitar aos muros institucionais e não cair nas arapucas coloniais. Faz uma diferença enorme construir uma espiral de seres encantados. Eles nos fortalecem na encruzilhada.

Selváticas, Colagem, 2017

Introspecção e o silêncio das águas, Colagem, 2018

O que te interessa em promover esse encontro e reconfiguração de fragmentos muitas vezes esquecidos?

Me interessa a possibilidade de imaginar e criar. A ressignificação de imagens e reinvenção de universos em um campo ampliado, as formas sendo desconstruídas em novos contextos e poéticas. A imaginação é uma rota de fuga em meus processos quebrados, um trajeto individual e coletivo, que me instiga a reexistir. Nessas narrativas estão inseridas a minha ancestralidade e caminhos de cura, as palavras e cheiros da minha terra, as andanças para além das fronteiras que nos são impostas.

Como se dá a sua pesquisa e seleção das imagens, e depois a decisão visual de como recortar e a que sobrepor?

Primeiro desenvolvo uma pesquisa de textos e imagens que me afetam. Utilizo imagens de revistas, livros, imagens que encontro nas ruas, arquivo de família e fotografias de minha autoria. Depois, começo a experimentar com essas imagens. É um processo muito fluído que une intuição e investigação. Antes de concluir a colagem, eu sempre busco reconfigurar mais essas imagens. Erro bastante e me encontro nesses erros. Incorporo transformações nesses processos, já que nunca seguem um mesmo trajeto. Ás vezes quando estou com alguns bloqueios, inicio as experimentações para que elas me guiem na construção de ideias, para que eu consiga maturar uma nova série.

Sem Título, Colagem, 2018

Sem Título, Colagem, 2018

Como você lida com a dificuldade de verificar a origem de uma imagem, tendo um trabalho que busca reconstruir e preservar memórias?

Na maioria das vezes eu tento verificar a origem das imagens que utilizo, mas acabo usando também as que não consigo identificar de onde vieram. No geral, penso numa forma de apropriação em que eu possa ressignificar imagens que em muitos casos estão apresentadas sob o olhar colonial. Desloco essas imagens de um cenário estereotipado e reinvento possibilidades de entrelaçar as nossas memórias em camadas cósmicas e ancestrais que fortalecem os nossos imaginários.

Em suas imagens, algumas fisionomias se tornam inexistentes ou difíceis de identificar. Para você o reconhecimento da ancestralidade está para além da representação?

Os próprios fragmentos dessas imagens já evocam força motriz que rompem as amarras coloniais. São travessias que tornam possíveis múltiplas realidades. Imagens que habitam na pele, no corpo, na natureza. Pensar na ancestralidade a partir desses fragmentos é expandir as minhas percepções em torno de nossas identidades. Reconhecer a afetividade com os que antecedem é um dispositivo de enfrentamento aos traumas da colonização, com tecnologias que nos abrem caminhos. Sobre os rostos, gosto de pensar caminhos em que eles se mesclam com elementos da natureza, produzindo desconstruções que nos levam para outros tempos e lugares. A ausência é um campo que deságua na constante ressignificação de memórias e da minha própria relação com as imagens encontradas ou fotografadas.

Sem Título, Colagem, 2018

Odoyá, Colagem, 2018

Fitotipia, 2020

Pode explicar um pouco mais sobre a fitotipia e antotipia? De que outras formas a natureza e o tempo te auxiliam e mobilizam nos processos?

São técnicas fotográficas experimentais que produzo a partir dos pigmentos orgânicos em imagens reveladas por exposição solar. Na antotipia se utiliza o álcool e as plantas, e não é necessário o uso de sala escura. Imprimo as imagens em positivo na transparência/acetato, onde as imagens são impressas em preto e branco e sobrepostas sobre o papel de maior gramatura, prensadas entre duas placas de vidro e são tingidas com a solução desses pigmentos naturais e expostas. Na fitotipia, o processo é semelhante, porém difere na plataforma de revelação que no caso são folhas onde o principal pigmento é a clorofila. Tentei várias vezes até obter um resultado. Em dias ensolarados de Natal, a chuva se faz presente em algumas tardes. As imagens são efêmeras, pois a luz causa o desbotamento das imagens e somem com o tempo. Trabalhar com as folhas e flores tem me ensinado muito sobre descolonizar as nossas mentes desse tempo linear. Desacelerar e contar com as imprevisibilidades da vida. A natureza me guia na compreensão da memória, autoafeto e afeto coletivo. São ventos que me direcionam para outros horizontes, que sopram e me lançam nos mares, nos rios. Carrego esses saberes num corpo quente úmido que assim como outros emerge da soma de subjetividades de tempo/espaço, possibilidades pulsantes e energias que nos incorporam e alimentam.

Como você enxerga a condição da sua produção e como isso mudou ao longo dos anos? Onde você espera que suas imagens cheguem no futuro?

Atravessei caminhos dilacerantes, produzindo por muitos anos sob o viés da precariedade. Nunca imaginei que meus trabalhos atravessariam tantas pessoas. É um acalanto no peito que aquece em dias turbulentos. Hoje, muitos caminhos se abriram e me impulsionaram a experimentar cada vez mais, florescer e criar múltiplas formas de reinventar. Espero expandir essas travessias em imagens para diversos lugares. Conhecer Jambuaçú, terra de minha saudosa avó. Construir com os meus e compartilhar a nossa força e afetividade. Voltar aos rios amazônidas e tecer sonhos, conexões e encontros, novos passados e futuros. Quero me perder novamente na vastidão das raízes com meus ancestrais.

Série Memória Ancestral, 2018

Flores Invisíveis, Colagem, 2017