Juliana Lapa

Falando em Línguas, 2018

JULIANA LAPA

Carpina, PE, 1985

Os trabalhos de Juliana são trazidos da memória a partir de uma relação com elementos da natureza e fascínio pelas emoções humanas. Num processo intuitivo e arqueológico das imagens e materialidades produzidas, revela uma simbologia própria que evoca força, espiritualidade e insistência. Cria desenhos, pinturas e cadernos que são objetos-relíquias, auxiliando em sua prática e investigação diária. É representada pela Amparo 60 Galeria de Arte de Recife.

entrevista por Igor Furtado, publicada em 25/03/2021

Juliana Lapa
Juliana Lapa

Corpo Presente e Louca com Navalha na Mão, 2018

Pode contar um pouco sobre a sua infância e de como surgiu sua conexão com o fantástico?

Minha infância foi em Carpina, interior de Pernambuco. Morava numa casa enorme, construída pelos meus pais ao longo dos anos, numa ilha de mata atlântica no meio do canavial. Alí, ouvi muitas histórias de Comadre Fulozinha, demônios, espíritos e entidades da floresta, relatos detalhados de encontros e visões. Eu amava e ficava numa mistura de medo e fascínio. Vez ou outra minha mãe entrava no mato comigo, fazia uma reza e deixava uns bombons para Comadre Fulozinha, às vezes ouvíamos assobios. Vivi momentos inesquecíveis, sempre em contato com muitos animais, pois minha mãe adorava criar tudo quanto é bicho, misturado, solto. Desde muito pequena tive interesse pelo oculto, ainda lembro da sensação de escrever meus sonhos num diário com chave, num ambiente de completo silêncio. Os sonhos sempre foram um indício desse mundo que se revela aos poucos. Também nunca fui boa aluna. Fui a última da minha turma a aprender a escrever meu nome, isso já bem tarde. Mas em casa, meu pai me fornecia os livros que podia, me nutrindo com filosofia e literatura. Tive uma infância fantástica, lúdica e estou sempre em contato com esses momentos. Eles me alimentam até hoje. 

Foi nessa mesma época que começou o interesse em desenho?

Eu comecei a me interessar por desenho muito pequena, acho que como toda criança. Lembro que quando tinha queimada de cana, caiam fuligens do céu, uns pequenos traços de carbono que a gente coletava no ar e usava para criar formas nas paredes de fora de casa. É a memória mais forte do desenho que tenho. Nunca me senti tão livre como aquilo, até hoje. Outra coisa que também despertou a minha criatividade foram, como falei, os livros que meu pai me dava, de contos e fábulas como Esopo, La Fontaine. Criava historinhas com desenhos, pequenas narrativas e assim eu passava a maior parte do meu tempo no meio do mato. 

Juliana Lapa

Festa da Morte, 2019

Você cursou direito e trabalhou com cinema. De que formas esses momentos e interesses ainda te influenciam?

Eu sou de um lugar onde trabalhar com arte é algo distante. Não tinha contato nenhum com outras pessoas que gostavam do que eu gostava, me sentia isolada e isso acabou me incentivando para outros caminhos que tomei. Cursei direito por pressão familiar, mas nunca terminei o curso. Sou muito curiosa e comecei a trabalhar com cinema quando namorei um diretor de Recife. Passei alguns anos como produtora executiva e desenvolvi diversos trabalhos, aprendi muito. Agora estou desenvolvendo roteiro junto com uma amiga, Valentina Homem, e saber o caminho das pedras torna tudo mais tranquilo. Todo esse período me proporcionou essa liberdade. Hoje sinto que tudo o que aprendi e vivi foi muito bom. Claro que se pudesse e tivesse apoio mais cedo, teria feito o curso que desejava e teria outra história pra contar, mas gosto da minha trajetória, mesmo repleta de medos, deserções e imposições de todos os lados. Com as devidas proporções, terminei desaguando em quem eu era pequena, uma pessoa que desenha, escreve os sonhos e gosta do oculto. 

Como é o processo de criação no coditiano?

Eu vou desenhando e vivendo. Não tenho um método ou rotina. Já tive. Hoje eu tenho observado mais os fluxos como quem observa um movimento da natureza. Percebi que antes de iniciar um desenho grande (o que significa um mergulho num processo longo e exaustivo), eu passo pelo menos alguns dias completamente inerte, não consigo escrever, conversar, ver filme, fico estatelada. Recentemente, há alguns poucos anos, eu passei a meditar com mais frequência e esse período de hiato ficou menos doloroso. Percebo como os desenhos e as criações são cíclicos, pois existem momentos que eu tô fazendo tudo ao mesmo tempo: pintando, desenhando, escrevendo, fazendo todo tipo de projeto. Com relação às imagens, às vezes aparece uma imagem pronta, mas nunca consigo trazer ela para a execução. Entendi, também pela observação do meu processo, que esses trabalhos são obras do tempo, do momento, da circunstância. Não consigo planejar, às vezes me sinto que sou mera ferramenta do impulso, expectadora. Por isso, vou anotando nos diários tudo quanto é pensamento e sentimento que me acontece nos processos.

Juliana Lapa
Juliana Lapa

Convite e Riacho das Almas, 2019

E o processo de pesquisa de referências visuais e materiais?

Minhas referências podem vir de um texto, de um passeio na floresta ou uma imagem que vi há anos, mas que está submersa em algum lugar. Só que eu nem lembro delas, não tá numa pasta no computador. Nunca acreditei que tudo o que desenho é inteiramente meu. Um dia, abri um livro velho na casa do meu pai e encontrei uma imagem familiar, era A Queda dos Anjos Rebeldes de Bruegel e aquilo explicou tantos movimentos meus de produção de imagens e desejos de desenhos hoje. Foi quando passei a compreender melhor como funciona referência e inspiração pra mim. Já com os materiais, tenho uma pesquisa técnica, para descobrir novas possibilidades. O grafite, por exemplo, é recorrente nos meus trabalhos porque imprime emoção. Descobri através de exaustão e experimentação, uma profundidade e brilho muito especiais.

O que te motiva a manter o imaginário das florestas e mitos vivos? 

A primeira floresta que tive contato foi da zona da mata norte, devastada pela monocultura da cana, um deserto verde. A segunda foi a Amazônica, quando trabalhei em projetos de cinema em aldeias indígenas. Foi quando passei a sentir esperança na possibilidade de conviver em harmonia e respeito com a natureza. Mas hoje, com esse governo genocida, aniquilador, vemos o quanto a floresta é frágil aos interesses políticos e financeiros do agronegócio. Nunca vou deixar de desenhar Comadre Fulozinha. Ela é a cabocla guardiã, que pune aqueles que entram sem pedir licença, caçam os animais pela maldade e derrubam árvores avós. Ela faz parte de um imaginário que precisamos manter aceso. São símbolos e forças que estão presentes. Como tudo tem sua resposta, a pisa vai ser grande. Helena Blavatsky disse que se perdêssemos todo conhecimento que a humanidade já adquiriu, bastava entrar na floresta e observar a natureza para aprender tudo novamente. Para mim, é um enigma alheio às nossas ilusões, o templo maior da terra. Não há quem seja sensível, que entre numa floresta profunda e saia incólume, mesmo os habituados. É um organismo em constante mudança, não linear, imprevisível, que esconde-se em si mesmo. E o que mais me intriga é que ali se manifesta o maior mistério da vida e dos espíritos: a comunicação sutil entre as espécies, entre os reinos visíveis e invisíveis. Sei que desde a primeira vez que entrei, nunca mais voltei. Talvez minha casca esteja perambulando por aí e do fundo da mata minha alma sopre ordens para esse corpo executar. 

Juliana Lapa
Juliana Lapa

Somos tão pequenos, 2015 e A angústia é uma flor, 2019

Você sente pressões comerciais e expectativas em relação ao seu trabalho?

Não cumpro demandas de mercado, nem sinto pressão nesse sentido. Entendi que vou fazendo meus trabalhos e eles seguem seus caminhos. O que posso fazer é ir me inscrevendo em editais, salões, residências, trocando ideias. Desde que comecei a me relacionar profissionalmente com minhas produções, fui abrindo caminhos para elas circularem, tudo muito por iniciativa minha mesmo. Assim foi minha primeira exposição e assim também será a próxima, em 2022, na minha cidade natal. Também irei lançar um livro em breve. Em meio a essas ações, outras coisas foram acontecendo, exposições coletivas, vendas e a representação numa galeria de Recife. Concilio de uma maneira simples, pois pra mim não há nada mais importante do que a minha prática e o tempo dessa prática. Não é fácil porque é o meu sustento de vida, já passei muito perrengue, mas ultimamente tenho conseguido viver e trabalhar com o coração mais tranquilo.

Que projeto você sonha poder realizar algum dia?

Muitos projetos que quero realizar, dentre eles, filmes. Também tem muitas ideias que estou aguardando o momento mais adequado, sem pandemia, para colocar em prática. Desenvolver performances e outras áreas que por enquanto ainda estou tateando. Não posso dizer ao certo porque sei que quando fizer já vai ter mudado muito.