rato, auto retrato, 2020

IVO PUIUPO

São Paulo, SP, 1996

Ivo Puiupo desenvolve pesquisas com foco em narrativas sequenciais. Seu trabalho dialoga com quadrinhos e intersecções entre fotografia, animação e som. Puiupo é ¼ do coletivo de produções gráficas Pepito Corp, ½ do duo musical FUGA e ⅕ do coletivo de artes e programa de tutoria BASA 2.

entrevista por Igor Furtado, publicada em 31/10/2021

Óbice, publicado pela coleção des.gráfica do MIS, 2019

Pode contar um pouco da sua infância e adolescência?

Minha infância e adolescência foram regadas por uma certa instabilidade. Nasci em Portugal de mãe paraibana e pai manauara, mas minhas memórias mais antigas já tinham o meu pai como uma figura distante, morando de volta em Manaus. Me considero brasileiro porque apesar de ter nascido em Portugal, nunca consegui nacionalidade portuguesa. Permaneci lá com minha mãe até os 8 anos, quando nos mudamos para Aracaju, onde meu irmão nasceu um ano depois. Eu era uma criança bem introvertida, tinha muita dificuldade de interagir com outras pessoas e lembro de tristezas muito profundas que só recentemente entendi de onde vinham. Morávamos numa casa afastada da cidade, na zona de expansão. Nessa época tive bastante contato com a natureza e lembro de ficar deitado no quintal ouvindo o som do mar e olhando para o céu, cheio de estrelas. Quando tinha uns 11 anos, minha mãe foi diagnosticada com câncer de mama e voltamos para Portugal. Até hoje não sei se foram problemas financeiros ou para ficar longe do pai do meu irmão, que se mostrara uma pessoa violenta e instável. Lá fiquei até os 15 anos, quando minha mãe faleceu. Desse último retorno, tenho mais lembranças ruins do que boas. Não conseguia fazer muitos amigos e sentia que o sistema escolar era rígido e tosco. Faltava muito a escola, quase reprovando por faltas várias vezes. De volta ao Brasil, com 15 anos, passei pela casa do meu pai, da minha avó materna, dos meus tios e depois da minha tia em Aracaju, onde fiquei até os 18 anos. Saí de casa depois de uma briga desencadeada pela minha saída do armário como lésbica. Toda essa instabilidade de moradia veio acompanhada de instabilidade financeira, mas felizmente sempre estive acompanhado de pessoas que me ajudaram. Apesar de não ter terminado o terceiro ano do ensino médio, fiz o enem, consegui o certificado e vim pra São Paulo, que na minha cabeça era o lugar onde iria conseguir trabalhar com arte mais facilmente.

Como é seu processo de pesquisa e inspiração?

Acho que pesquisa em arte pode ser qualquer coisa, de um filme que você assiste até uma sensação mais abstrata. Um panfleto na rua, uma conversa com um amigo, sei lá. Para mim, seja lá o que for, acho que antes de incorporar ao seu trabalho, precisa de um tempo pra pensar a respeito. Não gosto de desenhar logo depois de ver uma exposição, escrever logo depois de ler um livro, primeiro tem que deixar assentar, senão você acaba só copiando, chega raso e fútil.

autoretrato e bird watcher, yashica 12 120mm, 2021

Quando começou a sua relação com o desenho e como é sua rotina trabalhando com quadrinhos?

Entrei em contato com quadrinhos pela primeira vez quando vim morar no Brasil com 8 anos. Primeiro fomos para a casa da minha avó em Campina Grande (PB) onde também morava um primo. Ele tinha alguns mangás e quadrinhos americanos tipo Dr. Slump, Spawn, Dragon Ball. Lembro de ficar vidrado lendo e tentando copiar os desenhos. No meu retorno a Portugal com uns 13 anos, comecei a frequentar feiras de zines e me autopublicar, minha mãe me incentivava bastante. Além disso, eu era fissurado por quadrinho japonês, lia muito mangá de terror, tipo Suehiro Maruo, Hideshi Hino, Nekojiru, Junji Ito, Junko Mizuno, etc. Também curtia Katsuhiro Otomo, Moebius, Tayo Matsumoto, Angeli... Sempre passei muito tempo na internet, que por bem ou por mal me levou a conhecer muita coisa e fazer amigos no rolê zineiro. Quando vim para São Paulo em 2015, comecei a estudar audiovisual no Senac Santo Amaro, que era bem próximo de onde eu morava, mas eventualmente larguei o curso por questões financeiras e porque a rotina de trabalhar durante o dia e estudar de noite, somada à minha depressão não tratada da época, estavam fazendo com que eu não conseguisse tirar muita coisa dali. Depois que larguei a faculdade foquei 100% nos quadrinhos e nos freelas de animação que eu pegava de vez em quando e no meio tempo também aprendi a tatuar. Viajei muito pelo Brasil, indo em eventos de publicação independente. Estava vivendo praticamente disso até a pandemia estourar.

Como funciona o processo de criação de uma narrativa sequenciada?

Meu processo com narrativa dentro dos quadrinhos sempre seguiu um caminho mais "espontâneo". Não faço roteiro, nem esboço, desenho tudo direto, uma página de cada vez. Seguindo esse processo, acabo fazendo coisas que nunca imaginaria de antemão, acho que me leva mais além do que se me limitasse com mil planejamentos. Com o tempo venho aprendendo que limitações também podem permitir liberdades interessantes, mas nas vezes que planejo muito, ainda me sinto travado e quadrado.

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Quando você começou a fotografar? Você tem um interesse específico pelo analógico?

Meu pai é fotógrafo e talvez por saturação emocional dos assuntos referentes a ele, demorei muito pra admitir que tenho interesse na prática. Mas esse ano durante um período em que estava com suspeita de Covid, isolado no meu quarto por duas semanas, fiquei obcecado pelo trabalho do Peter Hujar, comprei impulsivamente uma câmera médio formato e com a ajuda do meu amigo Victor Galvão, comecei a explorar essa área. Me encanta a materialidade do analógico e os processos entre tirar a foto e conseguir vê-la. Segue um pouco aquela pira de não conseguir imaginar o resultado, da incerteza, talvez dê tudo errado! Pra mim é aí onde mora o tesão.

Quais os pontos positivos e negativos de ter um trabalho tão interdisciplinar?

Positivo, as coisas se contaminam e se mesclam, eu não consigo ficar muito tempo fazendo a mesma coisa e curto o exercício de revisitar práticas depois de um tempo, com uma nova perspectiva e influência do que mais houver pra aprender em outros lugares. Negativo, fica difícil escrever sobre seu próprio trabalho, as pessoas se confundem, não dá pra dizer que sou quadrinista, mas também não dá pra dizer que sou fotógrafo, ou falo que sou todas essas coisas e corro o risco de soar arrogante ou disperso. Me dizer simplesmente artista parece não responder a pergunta na maior parte das vezes. No fim tem que ir pelo contexto e aceitar que muitas vezes é só uma forma de responder como você paga as contas, mas não sinto necessidade de definir meu trabalho assim.

Flavushh, yashica 12 120mm, 2021

Pode contar mais sobre seus projetos paralelos Pepito Corp, FUGA e BASA 2?

A Pepito Corp. é um selo que eu, Flavushh, Adônis Pantazopoulos e Julia Balthazar temos. Foi inicialmente criado para ficar mais fácil de inscrever em feira e evento, um símbolo da nossa amizade e companheirismo, nome para a influência que exercemos uns sobre os outros enquanto fazemos simbiose. Produzimos algumas zines juntos, mas com as limitações da pandemia, acabamos deixando esses projetos em standby, pela autopublicação depender tanto das feiras e eventos coletivos para valer a pena. A Fuga é uma banda que tenho junto com o Nolo, que já tem uma longa trajetória com música. Aprendo muito com ele e espero que ano que vem lancemos nosso primeiro álbum. Já o BASA 2 é um Grupo de Estudos Mentoria e Articulação (daí o antigo nome Gema, que recentemente mudamos), mentorado pelo Lucas Velloso. É um espaço muito importante e querido de troca e diálogo durante a pandemia. Poder observar a produção de cada um estando todos em lugares distintos, me deu um norte num período em que as coisas estavam meio soltas. O grupo integra e integrou; Ian Indiano, Nicholas Steinmetz, Ing Lee, Patrícia Baik, Céu Isatto e eu. Os quadrinhos enquanto campo de experimentação em mescla com produção de ateliê é o que acaba nos unindo enquanto grupo, e em Janeiro vamos realizar nossa primeira exposição em SP.

Qual o seu projeto dos sonhos?

Quero fazer um quadrinho grande, um fotolivro, e uma série mais extensa de pinturas. Além disso, também quero costurar uns bichos de pelúcia/soft sculpture gigantes.

autoretratos em ilustração, 2020