Andréa De Mayo & Al Capone, 1997

CLAUDIA GUIMARÃES

São Paulo, SP, 1970

Claudia é bacharel e mestranda em Artes Visuais pela ECA-USP. Foi repórter fotográfica em jornais do Brasil e Espanha, ganhando diversos prêmios ao longo da carreira. Nos anos 90, desenvolveu profundo interesse pela fotografia auto biográfica e documental. Suas jornadas pela moda, na noite e com a comunidade LGBT+, a tornaram reconhecida internacionalmente, tendo suas imagens publicadas em diversos livros e revistas como Vogue e Elle. Seu trabalho faz parte do acervo permanente da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Atualmente é representada pela Lona Galeria.

entrevista por Igor Furtado, publicada em 27/08/2020

Natasha Dhumont, 1999

Claudia Wonder, 2004

Pode contar um pouco sobre sua infância e de como sua criação te influenciou artisticamente?

Nasci no extremo da Zona Leste de São Paulo e tive uma infância feliz e triste ao mesmo tempo. Minha família era pobre, mas eu estudava em um bom colégio público. Sofria muito bullying lá por parecer um menino, mas na rua onde brincava com minhas amigas era muito feliz. Minha mãe era uma espécie de líder comunitária e apesar de religiosa, não era conservadora. Ensinou a mim e minhas três irmãs a sermos feministas e independentes desde muito novas. Ela fazia parte da Teologia da Libertação, um movimento ligado à igreja católica de esquerda nos anos 80. Foram nesses encontros que comecei a me interessar por arte, teatro e poesia; a partir das leituras que as freiras davam para a gente. A fotografia só surgiu com mais força depois da adolescência, quando entrei na faculdade. 

Quando você começou a sair? A noite também teve relação com o começo do seu interesse pela fotografia? 

Eu sempre gostei de sair para dançar no meu tempo livre. Amava ir junto das minhas irmãs mais velhas em boates LGBT+. Na primeira vez que fui tinha 17 anos, mesma idade em que saí de casa e fui morar sozinha, daí não parei mais. Isso foi em 1987, uns dois anos depois do fim da ditadura militar, mas até então eu não fotografava. Na verdade nessa época não era muito comum as pessoas fazerem isso, principalmente nas boates lésbicas, já que era tudo meio escondido. Logo depois, comecei a estudar artes plásticas e trabalhar em um shopping. Um amigo que trabalhava comigo me vendeu uma Pentax e me ensinou coisas básicas. Foi com essa câmera bem manual que eu comecei a fotografar. Daí o meu interesse foi se tornando maior e decidi começar a praticar durante a noite, porque trabalhava e estudava durante o dia, então não tinha muito tempo para treinar. No meio disso, eu também fiz um curso onde aprendi a revelar. Construí um laboratório improvisado no apartamento que dividia com uma amiga, onde conseguia revelar as imagens em preto e branco. Eu ainda tenho até hoje essa minha primeira câmera e as cópias dos negativos. 

Fotografias publicadas na coluna Noite Ilustrada do jornal Folha de São Paulo, entre 1992 e 2006.

O que foi a coluna Noite Ilustrada e como era o seu trabalho lá?

A Noite Ilustrada foi inspirada em uma outra coluna do jornal nova-iorquino The Village Voice. Acho que em São Paulo e no Brasil foi a primeira a retratar uma parcela da noite underground. Saía toda semana em um dos maiores jornais do país, a Folha de São Paulo. Um amigo meu trabalhava com a Erika Palomino e me disse que ninguém queria fotografar para a nova coluna dela, por ser de madrugada e voltada para a cena LGBT+. Ele sabia que eu fotografava a noite há mais de um ano e conhecia todo mundo, então me indicou. No começo eu não recebia nada, apenas dois rolos de filme. Também ainda nem tinha um flash, então chamava quem estivesse fotografando para um local mais claro, o bar da frente ou algo parecido. Em 1992, depois de um ano trabalhando dessa forma, surgiu uma vaga de fotógrafo no jornal e fui contratada. Sempre tive uma pauta, ía nas boates que estavam mais massivas no momento;  Sra. Krawitz, Samantha Santa, A Lôca, mais pra frente o Hell's. Também fotografei muito as primeiras raves, assim que começaram. Fiquei sete anos lá e mesmo depois de sair do jornal, continuei fazendo fotos para a coluna até o seu fim, em 2006.

Qual a história mais inusitada que te aconteceu ao longo desses anos fotografando?

Foi quando estava fotografando um editorial para a Vogue Brasil no centro de São Paulo. As locações eram a Amaral Gurgel e a Boate Prohibidu’s da Andréa de Mayo. Era como se fosse um documentário, em que duas mulheres frequentavam os lugares mais interessantes da cidade com pessoas reais, famosas na noite. Quando estávamos subindo a escada da boate ouvi um barulho, mas nem imaginava que eram tiros. Vi um homem correndo ensanguentado na minha direção e nisso todo mundo começou a correr; as modelos, o produtor de moda. Depois a Andréa me disse que era o namorado abusivo de uma travesti, que tinha se defendido dessa forma. “Era ele ou ela”, ela disse. Mas ele não morreu, foi só um “aviso”.

Sylvetty Montilla na Boate Prohibidu's de Andréa de Mayo, 1996

Você sentia responsabilidade pela forma que seus retratos poderiam influenciar o imaginário coletivo? 

Era muito jovem e estava fotografando o meu mundo, minhas amigas. Não tinha consciência da possibilidade de transformar nada. A única coisa que pensava era que estava conseguindo unir duas coisas que eu amava, fotografar e sair para dançar. Sempre fui muito tímida, mas também curiosa, então fotografar me aproximava das pessoas. As minhas abordagens nas boates sempre foram cuidadosas, nunca quis colocar ninguém numa situação desconfortável. Até porque eu fazia parte daquilo e sabia das muitas problemáticas na forma sensacionalista em que éramos representadas. Hoje continuo não tendo tanta pretensão de que minhas imagens deixem um legado ou passem alguma mensagem no futuro. Se elas revelarem ao menos um pouco da variedade de corpos e de orientações sexuais que existem no Brasil e que isso traga reconhecimento, respeito e segurança à população LGBTI+, já fico feliz.

Quais os maiores desafios que você enfrentou ao longo da sua carreira?

A fotografia no Brasil é uma profissão majoritariamente masculina, são poucas mulheres. Então temos sempre que provar alguma coisa; Que conseguimos dar conta de tudo, que realmente conhecemos técnicas fotográficas clássicas; mesmo que estejamos tentando revertê-las. Acho que assim como em outras profissões as mulheres tem que provar que sabem, isso é muito chato. O fato de ser lésbica e de fotografar pessoas de gêneros e sexualidades dissidentes me fez sofrer muita descriminação em lugares ditos intelectualizados, como a Folha de São Paulo, e me fez pejorativamente famosa no meio da moda como fotógrafa trash. Ter que ficar ouvindo “você não gosta de homem” e outras piadinhas de cunho misógino e homofóbico é muito desagradável e triste. Desanima lidar com esses preconceitos todos os dias.

Bianca Soares na minha casa, 2005

Roberta Mattos na casa da Vanessa, 2002

Katia Miranda no Columbia, 1993

Como você enxerga a preservação da memória da comunidade LGBT+ no Brasil hoje, em especial em relação ao arquivamento do seu trabalho? 

Hoje há muito retrocesso. Temos um governo que prega acabarmos com a ideologia de gênero, sem ter argumentos, ao invés de acabar com a miséria, falta de acesso à educação, à saúde, etc. A vida é moldada em favor de cisgêneros, heterossexuais, brancos e ricos. Dessa forma, todas as políticas de reconhecimento e preservação de memória de comunidades vulneráveis retrocedem. Aqui é quase inexistente uma catalogação mais profunda do trabalho de fotógrafos e os poucos acervos remanescentes estão precarizados ou estão na transição para o digital, como o da Pinacoteca. Uma boa parte da versão física do meu trabalho ficou na Folha, em um grande arquivo que eles tem. O resto dos negativos eu guardo comigo em casa, mas não nas condições mais ideais possíveis, até porque não teria dinheiro para isso.

Como foi sua transição para a fotografia de moda e publicidade? Que orientações você daria para quem está começando a fotografar?

Eu fui para a fotografia de moda na intenção de aprender mais. Queria entender melhor a iluminação de estúdio e fazer retratos dessa forma. Na sequência fui para a publicidade, mais para ganhar dinheiro e poder voltar a fazer meu trabalho pessoal. Agora voltei a dedicar a maior parte do meu tempo a fotografia autoral e também ao meu mestrado em Artes Visuais na USP. Acho que para quem está começando, é necessário perseverança e resiliência, não se deixar desanimar e continuar a fotografar aquilo que você acredita e faz parte. Isso é o mais importante.

Roberta Bell no Hell's Club, 1998

Beto Jamal em casa, 2002

Laura de Vison no Columbia, 2000

Cristal no Viaduto do Chá, 1997

Marcia Pantera e Johnny Luxo no desfile de Alexandre Herchcovitch, Theatro Municipal, 2002