Contra-capa do livro O Gamo e a Gazela

CASSANDRA RIOS

São Paulo, SP, 1932-2002

Cassandra Rios, pseudônimo de Odette Pérez Ríos, foi uma escritora brasileira de ascendência espanhola. Escrevia livros de ficção, mistério e erotismo, que geralmente tinham casais lésbicos como personagens principais. Ela foi a autora mais perseguida e ameaçada durante a ditadura militar, tendo quase todas as obras censuradas e tiradas de circulação. A controvérsia de seu nome e escrita fizeram com que se tornasse a primeira brasileira a alcançar a marca de 1 milhão de exemplares vendidos.

publicado em 26/08/2021

02_edited_edited.jpg

Retratos de Cassandra Rios

Odette Pérez Ríos era de Perdizes, bairro de classe média alta em São Paulo. Apesar de ter sido uma criança solitária e nunca ter desejado formar uma família tradicional, casou na igreja aos 18 anos. A união de fachada com um amigo gay foi a maneira que encontrou de sair de casa sem chocar os pais, Graciano Fernández e Dona Damiana, imigrantes espanhóis católicos. Dois anos antes, em 1948, Odette havia começado a assinar seus textos como Cassandra, em referência à sacerdotisa considerada louca ao profetizar a Guerra de Tróia. Até então, o prazer feminino ainda era muito pouco discutido e sexualidades dissidentes eram tratadas como pecado, patologia ou crime na literatura brasileira. Porém, Cassandra estava determinada a escrever o que viriam a ser os primeiros romances lésbicos no país, com grandes doses de erotismo e vocabulário acessível. A Volúpia do Pecado, contava a história de amor entre duas adolescentes e foi rejeitado por diversas editoras. Ela acabou decidindo publicar independentemente, com dinheiro emprestado da mãe. O livro fez tanto sucesso que foi reeditado nove vezes em dez anos. Quanto mais escrevia, mais era perseguida. Porém, a controvérsia em torno da 'escritora maldita', também foram gerando lucro. Mesmo com a censura, Cassandra se tornou a primeira pessoa a vender 1 milhão de exemplares, superando autores famosos como Jorge Amado e Clarice Lispector.

Artes de capa dos livros de Cassandra Rios

Cassandra era a única mulher a viver da escrita no país, nunca tendo tido outra profissão. Com o dinheiro dos direitos autorais, mantinha um padrão de vida alto: tinha uma livraria, carros e três casas no estado de São Paulo. Ela vendia em média 300 mil livros por ano, no Brasil e em Portugal, o que leva a supor que tenha acessado muito além de um público lésbico. Por conta do sucesso, as editoras por qual passou, como Record, Spiker, CBS e MM, forneciam apoio jurídico. Para a ditadura, editoras que publicavam sobre sexualidade promoviam "revolução sexual", até mais ameaçadora que a própria "revolução socialista". Mais que o sexo explícito, era a combinação de lésbica e popular que fazia de Cassandra perigosa. Só que além de não se considerar pornográfica, Cassandra não entendia por que o erotismo era algo a ser combatido. "Pornografia é a intenção deliberada de chocar. É o sexo pelo sexo. Nos meus livros, o sexo só acontece em função do amor, para realizá-lo plenamente e sem preconceitos”. Na verdade, em seus livros ela também refletia sobre temas profundos, como política, poder, desejo e religião. Uma das características de suas narrativas era de que as personagens disputavam a construção da identidade lésbica, com todas as suas contradições, sendo abertamente contrárias a moral e bons costumes patriarcais. Suas obras mesclavam ficção com realidade e sinalizavam uma mudança de comportamento, uma transformação histórica.

Retratos publicados na matéria "Cassandra Rios: Qual o Pecado de Odete?" na Revista Realidade, 1970

Ainda que fosse sucesso de vendas, Cassandra foi a autora mais perseguida e tirada de circulação do Brasil. Quase todos os seus 50 livros foram censurados e queimados, tornando difícil de encontrá-los até hoje. Os que conseguiam os exemplares proibidos, liam os livros com medo de serem descobertos. Com a promulgação do Ato Institucional número 5 (AI-5), que oficializou a censura, se tornaram mais comuns batidas policiais, apreensões, coerção e longos depoimentos. Mesmo continuando a escrever, Cassandra passou a ter medo dos militares, se tornando muito reclusa e reservada, quase não saindo de casa. Nessa época, ficou muito decepcionada e abalada emocionalmente, sendo constantemente interrogada no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), livro após livro. Em certa ocasião, Cassandra foi detida e ficou 21 horas de pé, por causa de uma poesia chamada “Prisão da Liberdade”. Em 1976, ano em que 14 obras foram censuradas em apenas seis meses, Cassandra foi a falência, perdendo quase tudo. Para sobreviver, decidiu passar a escrever para jornais e revistas, e publicar romances com um nome masculino. Os livros como Oliver Rivers, igualmente eróticos, se tornaram os mais vendidos pela Global, provando que a perseguição não era contra sua literatura, mas sim sua pessoa. Neles, aproveitava para debochar dos censores: “Meus deliciosos cigarros eram consumidos por quase toda a população, mas fecharam-me a fábrica e levaram-me quase à falência. Então passei a vender apenas a nicotina que extraio dos meus cigarros. Isto é um palavrão e uma banana pro mundo!”

Entrevista com Jô Soares, 1990

Veto de censor ao livro 'Copacabana Posto 6' 

Retrato por Vânia Toledo

Em entrevistas, Odette separava as coisas e dizia que era uma pessoa diferente da que assinava os textos. Ela não gostava de falar da vida pessoal e de relacionamentos, mesmo sendo um dos maiores interesses da imprensa. Apesar de ter tido relações estáveis, com anônimas e famosas, nunca quis casar novamente. A forma como se portava e vestia também chamava atenção da mídia, que estranhava a preferência por usar roupas ditas masculinas, como terno e smoking, em aparições públicas ou em programas de TV. Mesmo continuando a escrever, Cassandra nunca mais conseguiu alcançar o mesmo número de vendas. Entretanto, foram feitas algumas adaptações de suas obras para o cinema, como o sucesso de bilheteria, Ariella, a Paranóica (1980); Tessa, a Gata (1982) e A Mulher Serpente e a Flôr (1984). No final dos anos 1980, Cassandra ganhou um programa na Rádio Bandeirantes e se candidatou a deputada estadual nas eleições que marcariam o fim da ditadura, mas não foi eleita. Até o fim da vida manteve o trabalho como revisora de livros e no tempo livre dedicava-se a outra paixão, a pintura. Cassandra morreu de câncer aos 69 anos, em 8 de março de 2002, Dia Internacional da Mulher. Pouco depois, lançaram oficialmente sua autobiografia, Mezzamaro, flores e cassis, onde lembra seus apelidos: “papisa do homossexualismo”, “dama de capa e espada”, “demônio das letras". O fascínio e impacto que exercia sobre os leitores, mostra como Cassandra foi pioneira, não só na profissionalização de escritoras no país, mas também na possibilidade de discutirmos de forma mais aberta e profunda o que significa ser LGBT+ no Brasil.

Capas dos jornais Lampião da Esquina e Pasquim; Pôsters das adaptações cinematográficas dos livros de Cassandra: Ariella, A Mulher Serpente e a Flôr e Tessa, a Gata

Cronologia de Livros Publicados (além destes, mais de 20 livros são conhecidos, porém não se sabe a data de publicação):

1948- Volúpia do Pecado e Carne em delírio

1949- Eudemônia

1951- O gamo e a gazela

1952- O bruxo espanhol, A lua escondida, A sarjeta e paranóica

1954- Minha metempsicose

1956- As vedettes, A madrasta - Copacabana posto 6 e Georgette

1962- Tara, A borboleta branca, Muros altos e A noite tem mais luzes

1963- A breve história de Fábia

1965- Veneno, Uma mulher diferente, Macária, A serpente e a flor, Um escorpião na balança e Tessa, a gata

1971- Canção das ninfas, As mulheres do cabelo de metal e Mutreta

1973- Nicoleta Ninfeta

1975- Marcella e As Traças

1977- Anastácia e Censura

1978- Uma aventura dentro da noite, A santa vaca, Patuá e Maria Padilha

1979- O gigolô e Prazer de pecar

1980- Marcellina

1981- Eu sou uma lésbica

1997- Entre o reino de Deus e do Diabo 

2000- MezzAmaro - flores e cassis

Referências de Pesquisa:

VIEIRA, Kyara Maria de Almeida. "Cassandra Rios – a construção do nome e a vida escrita enquanto tragédia de folhetim", 2014

PAIVA, Marcelo. Literatura de Cassandra Rios educou uma geração, Folha, 2002

BARBIERI JR, Miguel. Documentário registra a vida e a carreira de escritora lésbica, Veja São Paulo, 2013

ALCURE, Lenira. Cassandra Rios: “O homossexualismo virou profissão”. In. Revista Fatos e Fotos, 1983

REIMÃO, Sandra. Repressão e Resistência: Censura a livros na Ditadura Militar. Editora da Universidade de São Paulo, 2011

Acervo Bajubá, Entrevista e Reportagem "Cassandra: Qual o pecado de Odette?" na Revista Realidade, 1970

Lampião da Esquina, edições 5 e 29, publicadas em 1978 e 1980

Artes de capa dos livros de Cassandra Rios