Chegada de Bambola numa festa em Torre del Lago, 2005

BAMBOLA STAR KAXINAWÁ

Tarauacá, AC, 1970

Bambola Star nasceu na aldeia dos Kaxinawá no Acre, perto da fronteira com o Peru. Depois de fugir de Tarauacá e viver pelas ruas do Rio de Janeiro, se mudou para Roma, onde entrou para o mundo do espetáculo e construiu uma carreira de enorme sucesso. Ao longo dos anos, sua fama cresceu e passou a fazer grandes comemorações de aniversário. Sempre acompanhada da cachorrinha Wendy Star, hoje participa de competições, festas e eventos, como madrinha ou convidada especial.

entrevista por Igor Furtado, publicada em 25/02/2021

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Fotos do Igarapé do Caucho enviadas por um dos irmãos de Bambola, de bolsa vermelha na direita

Pode contar sobre a sua infância no Brasil e da sua relação com a família?

Eu nasci na encruzilhada das margens do Rio Muru e do Rio Tarauacá, no Igarapé do Caucho, aldeia dos Kaxinawá. Uma região da floresta amazônica perto da fronteira entre o Acre e o Peru. Lembro de crescer comendo farinha, banana, açaí e peixe podre muquinhado na folha e de passar boa parte do meu tempo na praia da Bacurana e no mercado municipal. Infelizmente, não tive o privilégio de ter fotos da minha infância. Na realidade, eu não tive infância no Brasil. Mamãe e papai morreram quando eu era criança. Fugi com 11 anos, sem falar português, só falava Huni-Kuí. Foi uma decisão dolorosa, mas senti que precisava viajar por essa estrada, não conseguia me expressar na aldeia. Felizmente, hoje consegui retomar a relação com a minha família em Tarauacá, onde três dos meus irmãos ainda vivem. Agradeço muito a minha grande amiga, Pamela, que também mora lá e possibilitou esse reencontro. Durante 20 anos eu não tive contato com o Brasil e nem sabia se meus parentes estavam vivos. Antigamente, tudo se baseava na natureza mesmo, hoje já é muito mais modernizado. Sempre trocamos vídeos, mas espero que em breve eu consiga voltar. Tenho grande amor pelo povo acreano e orgulho da minha terra, do meu sangue indígena.

Como foi o processo de ir para o Rio de Janeiro e depois para a Itália?

Consegui chegar no Rio de Janeiro de carona, onde fiquei anos dormindo nas ruas com outras crianças. Também morei na Cinelândia e perto do Sambódromo. Foi nessa época que conheci uma trans que trabalhava numa boate e me levou sob sua asa, me ajudando a ter uma melhor condição de vida. Algum tempo depois, ela me disse que eu poderia trabalhar de empregada na Itália. Me mudei com 16 anos e na época haviam leis muito rígidas e um grande tabu em relação a nós aqui. Sempre tentei encarar isso com muita coragem e força. Acredito que o nosso destino já está traçado desde que nascemos. O meu era de passar por esses momentos difíceis e vir parar em outro país. Foram os maiores aprendizados que eu poderia ter, me deram uma força sobrenatural. Depois que consegui pagar o preço por minhas dívidas de viagem, minha vida se transformou. Foi aqui que pude começar a ganhar dinheiro com meu próprio suor, depois como artista de filmes e personagem público.

Bambola Star
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Bambola Star
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Como foi recomeçar sua vida aí? O que mudou quando você ficou famosa?

Recomeçar a minha vida aqui foi bem difícil, já que eu não falava italiano. Porém, quando estamos determinados a conseguir alguma coisa, tudo se torna possível. Para poder me defender de ofensas e conseguir o que sempre sonhei, minha casa própria, meu corpo, tive que aprender a força. A sorte é que sempre me acolheram. Os italianos tem paciência e ensinam quando você não sabe falar. Eu adorava ir para as ruas, tentar conversar com pessoas de todas as idades que se maravilhavam com a minha história. Quando entrei no mundo do espetáculo, e a fama estava apenas no começo, eu já era popular pelas ruas. Já era comum que me parassem, acho que pelo meu modo particular, e pedissem para tirar fotos comigo. De repente, com a ajuda dos meus assessores, minha vida profissional e financeira foi mudando. Passei a usar jóias e roupas caras, andar em carros luxuosos e ir para as discotecas mais exclusivas da Itália, frequentada pela alta burguesia. Por isso, teve um período que tive que me privar de certas liberdades, por conta da minha segurança e daqueles a minha volta. Os meus contratos me privaram de muitas coisas, dessa vida simples que eu sempre gostei de viver. Sofri muito nessa época, mas acredito que foi necessário abrir mão desses momentos, para chegar onde eu cheguei. 

Quando você começou a explorar seu interesse por moda?

Todo ser humano nasce com uma criatividade única. Acredito que sou só mais uma dessas pessoas, totalmente única. Eu achava que não conhecia nada de moda, mas passei a me interessar muito depois de passar a viver aqui. Comecei a entender que a moda é arte, cultura e uma forma de trazer novas dimensões para minha vida e trabalho. Nunca quis imitar modas famosas e caras, mas criar minha maneira de vestir, tirando inspiração da minha própria trajetória. Já usei milhares de perucas, roupas e jóias e na grande maioria, todos os looks eu mesma criei. Geralmente desenho todas as caracterizações, vou no costureiro e mando fazer. Na Itália a moda é muito diversa, então quando quero comprar algo, busco roupas que tenham a ver comigo. Adoro Dolce & Gabbana, Versace e Valentino, mas não copio. Quem cria minha moda sou eu.

Chegada de Bambola em sua festa de aniversário, 2008

Como surgiu a ideia de comemorar o seu aniversário com grandes festas, que acabaram tornarando o dia 2 de agosto tão importante na região?

Hoje vejo que muitos fazem mangofa na internet, diminuindo simplesmente como festas de travesti. Esses mesmos acreditam que todas nós estamos na prostituição. Os meus aniversários não são uma festa ou comemoração normal, são um grito de vitória e de guerra, um grito de lei. Quero que as pessoas não nos vejam mais como objetos, mas sim como seres humanos. Cada evento que fiz foi aberto para aqueles que algum dia foram como eu, crianças abandonadas, expulsas de casa por serem quem são, que não tem amor de família e não podem comemorar, como ainda existem muitas no Brasil. As festas também sempre trouxeram visibilidade e uma mensagem a muitas trans que vivem na Itália, quando quase não tínhamos oportunidades para saírmos a uma discoteca, quando não havia eventos organizados por uma travesti brasileira. Quando queria contratar alguém e percebiam que a responsável era trans, sentia discriminação, mas não abaixava a cabeça pois sabia que era legal no país. Fui e sou muito importante para essas pessoas que vivem aqui. E ser lendária para mim é poder deixar de herança algo que alguém mais jovem vai poder pegar pra si, a minha força, a minha espada de guerra. Foi um percurso muito longo e difícil para chegar ao valor e a sensibilidade de uma mulher. Por isso, tento sempre lembrar que lutem por seus sonhos e seus futuros, assim como eu lutei e consegui alcançar. O que é nosso, mais cedo ou mais tarde a gente conquista.​

Você participa de vários concursos de beleza, como madrinha e jurada. Como você se aproximou desse mundo?

O concurso mais importante daqui, o Miss Trans Italia, acontece há mais de 20 anos e é organizado por uma grande amiga, Regina Satariano. Ela foi uma das pessoas que confiou no meu potencial e transformou a minha vida. O seu trabalho na Toscana é muito importante, tanto nos concursos, como no ativismo, ajudando várias pessoas LGBT+ com suas necessidades básicas, como documentação, moradia, saúde e alimentação. Como eu já era bastante conhecida, ela me contratou para ser porta voz de visibilidade do evento. O concurso também já era conhecido, mas eu o abrilhantei ainda mais, trazendo vários talentos. Até então, as travestis italianas tinham certo preconceito com as brasileiras, acreditavam que não tivéssemos cultura. Eu mostrei justamente o contrário, lançando várias meninas na dublagem, muitas que estão aí até hoje fazendo sucesso. Foi nessa época que conheci várias pessoas da televisão, modelos, empresários e atores. Também passei a participar de vários outros concursos como madrinha e jurada. Anos depois, a Regina decidiu transformar o concurso e me tornar representante da nova versão. O Miss Trans Italia Sudamerica acontece desde 2010 e visibiliza muitas pessoas criativas da América do Sul que moram aqui na Itália, como maquiadores, estilistas e dubladoras.

Bambola Star
Bambola Star
Bambola Star

O seu casamento também foi um marco. Pode contar um pouco dessa experiência?

Conheci meu marido em Ferrara, durante uma das noites em que marcava presença VIP. Ele é italiano e desde o início nasceu entre nós um sentimento puro de amor, respeito e lealdade, por isso depois de oito meses decidimos nos casar. A cerimônia foi celebrada na região da Emília-Romanha. Durante a minha vida eu tive milhares de namorados, mas nunca tinha me casado dessa forma, em união civil, tendo tudo assegurado pela lei. É algo muito importante pois traz a perspectiva de um futuro mais seguro. Eu sempre fui uma militante do direito ao casamento igualitário e hoje já estou casada há três anos, foi uma grande vitória. Todo o percurso até a igreja me passava um filme na cabeça de quando deixei o Brasil. Ao pegar o voo, pressentia que não saberia quando voltaria. Nesse caminho foi a mesma coisa, imaginar um lugar totalmente novo, sabendo que minha vida seria diferente dali em diante.

Como você se sente em relação a constante exposição na internet e ter esse alcance nas redes sociais?

Isso para mim é um grande prazer, ver que tudo que eu fiz na Itália de alguma forma teve um impacto no Brasil. Pensar que uma travesti analfabeta e índia possa chegar onde eu cheguei tem que ser motivo de felicidade. As pessoas na internet conhecem só uma pequena parte da minha vida. Eu sou uma grande personagem, então para narrarem toda a minha história seriam necessários pelo menos dois livros. Sempre agradeço a todos que me acompanham e me apoiam de alguma forma. Uma das melhores coisa é receber amor né, mesmo que virtualmente. Você não pode imaginar o poder, força e energia imensa que essas pessoas me transmitem todos os dias. Ao mesmo tempo, acho que deveria se usar mais desse tempo de visibilização das nossas imagens e falas para se pensar e discutir sobre o direito de inserção de pessoas trans no mercado de trabalho, por exemplo. Por que no fim, não são todas que chegaram aonde eu cheguei. É muito difícil para nós conquistarmos esse lugar, mesmo aqui. Acho que muita gente esquece disso.

Bambola Star
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Wendy Star, Recado de Bambola, "Bambola é boneca em Italiano" // "Bambola Super Star!" por Maura Migliorini 

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